segunda-feira, 17 de junho de 2013

O LIVRO COMO PROBLEMA ECONÔMICO


O livro como problema econômico
Passear na biblioteca e encontrar livros danificados pode causar desconforto; no entanto, talvez seja melhor assim: o desgaste e a reposição tornam viável a indústria de livros. Temos uma reverência quase mística pelo livro, pois ele possui a nobre função de registrar e de transmitir o conhecimento. No entanto, algumas vezes é preciso pensar nele como um objeto qualquer, sujeito a regras econômicas. Disso depende a própria sobrevivência da literatura: para persistir em nossa sociedade capitalista, o livro tem de ser lucrativo.
A maior dificuldade econômica do livro é a de ser um produto quase isento de perecibilidade. Alguns deles duram séculos, e existem papiros que duram milênios. O conteúdo de alguns livros se deteriora, como ocorre em manuais de Direito e de Medicina. No entanto, em se tratando de literatura artística, não existe esse escape: os temas são universais e atemporais, jamais se esgotando. Ironicamente, isso pode ameaçar a existência do livro, pois um produto que dura muito e vende pouco significa prejuízo, desestimulando o investimento.
Bens duráveis, como livros, foram responsáveis por crises econômicas mundiais. Eles eram estocados e se acumulavam, o que arruinou indústrias e causou desemprego. A solução surgiu com bens de vida útil curta. Um exemplo disso pode ser verificado na indústria automobilística. Muitos carros de antigamente ainda funcionam, enquanto gerações e gerações de carros atuais tornaram-se sucata. Isso mantém contínua a busca por carros, garantindo os lucros das empresas e, por conseguinte, o emprego das pessoas.
Enquanto isso, os livros continuam imperecíveis. Pode-se dizer que é uma invenção perfeita: foi criado para conservar o conhecimento e, em condições ideais, cumpre essa função de forma quase infalível. Tentou-se criar um livro com impressão perecível como a dos terminais de bancos eletrônicos. O problema é que isso talvez não faça sentido: o livro foi criado para preservar o conhecimento. Além disso, dificilmente alguém compraria livros épicos como “Guerra e Paz” sabendo que o conteúdo vai desaparecer em alguns dias, enquanto a leitura demanda meses e, talvez, anos, como a Bíblia.
Como resultado, investidores e até mesmo escritores desistem dos livros. No fim, prevalece a ideia distorcida de que “cultura” é algo “nobre demais” para ser medido em “valores mundanos” como dinheiro. A função de produzir e de distribuir livros é abandonada a iniciativas plenas de boa vontade, mas desqualificadas, como auxílios governamentais e escritores amadores. Felizmente, surgem algumas oportunidades, como a proporcionada pelo Acordo Ortográfico. Ele tornará obsoleta a ortografia de muitos livros, o que demandará reposição. Outras soluções serão bem-vindas – exceto alguma parecida com a do livro “Farenheith 451”, no qual as bibliotecas eram queimadas por incendiários profissionais.
(Texto de Marcelo dos Santos Netto originalmente publicado em http://www.hypeonline.com.br)


Marcelo dos Santos Netto é bacharel em Comunicação Social, escritor e mestre em Relações Internacionais. Autor dos livros "Corações de barro e outros contos" (2001) e "Material" (2010), cronista e articulista, produtor e organizador de livros e de antologias literárias. É membro da Academia de Letras Humberto de Campos e conselheiro da área de Literatura no Conselho Cultural de Vila Velha. 

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