segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

CRÔNICA - A DESIMPORTÂNCIA DOS SEM TALENTO

"Ele me perguntou se eu fumava (fumaria) um baseado, daí eu disse: Um não! Eu fumo um montão!"


A desimportância dos sem talento

Estava indo à praia quando ouvi uma conversa entre dois jovens, com, mais ou menos, vinte anos cada. Um deles contava animadamente um "causo". Dentre algumas situações listadas, ele proferiu a frase do alto desta crônica. Mais. Proferiu a frase com orgulho incomum. Em suma: Ele era importante porque fumava muita maconha. Eis o seu mérito!

André Gide, escritor francês, certa vez disse que "É melhor ser odiado pelo que você é do que amado por aquilo que você não é", contudo amor é tudo que buscamos na vida que, nestes dias atuais, se ramificou através da fama. Em suma: O amor pelo que você conquistou, ou fez.

Nenhum problema em se buscar a fama, se ela viesse, adjunta, ao sucesso. Fama e sucesso, aliás, tem classificações absolutamente distintas. Sucesso é atingir o máximo de excelência em determinada atividade. A fama, por sua vez, pode surgir pela sua simples exposição que, inclusive, na maioria das vezes, advém de esforço algum. O sucesso pode trazer consigo a fama. A fama, por sua vez, nunca trará o sucesso a reboque.

Em miúdos. Lima Duarte faz grande sucesso como ator e, por isso, se tornou uma personalidade famosa. Um ex BBB qualquer fica famoso, mas não atinge nenhum sucesso, pois não possui mérito algum. Lima Duarte tem 50 anos de sucesso. Um ex BBB tem 50 dias de fama.


A fama por nada

Daí voltamos ao jovem da frase do alto desta crônica. E exercitemos nossa capacidade de imaginação. Pelo amor de Deus, sem as hipocrisias de achar preconceito em tudo, por favor!

O jovem era feio, pardo, magro, estava trajado com roupas pouco elegantes, falava um Português afetado e recheado de gírias. Andava a pé em um sol de onze da manhã de um dia de meio de semana. 

Concluí-se dentro do nosso imaginativo exercício que: O jovem não está acima da média nos quesitos inteligência, nem beleza, nem aptidão artística ou esportiva. Oras, a imensa maioria de nós também não estamos. Contudo este jovem apresenta decisiva diferença. Ele quer ser famoso! E, acredite, ele não é único.

Se ele não é bonito, nem craque de futebol, se não sabe cantar e/ou se destacar em quaisquer outras atividades de relevância, o que lhe sobra: Ser famoso porque fuma maconha.

Outro exemplo. Tenho vários contatos no meu Facebook. Em sua maioria adolescentes. E elas tratam de marcar sua posição de destaque na sociedade fazendo o quê? Tendo inimigas. Faça você esse exercício. Veja quantas pessoas mandam "recados" às inimigas na sua listagem de contatos. Dos mais sarcásticos aos mais ferozes. Agora perceba a reflexão implícita: Se tenho inimiga é porque causo inveja. E se causo inveja, isso se dá porque tenho uma beleza ou alguma aptidão que se destaca.

O mais inusitado é que a maioria destas jovens não são belas, não tem aptidão artística ou esportiva destacada e não possuem desempenho escolar acima da média.

Acha meu argumento furado? 'Show das poderosas' da Anitta e 'Beijinho no ombro' de Valesca Popozuda falam de quê? Mulheres que não se abalam com as inveja das "recalcadas", inimigas em linguagem popular.


Ganhe uma aptidão e cause inveja de verdade

Bem, essa não deveria ser a motivação, mas... Se você realmente quer causar inveja (ou admiração) em alguém, faça por onde. Todos nós temos alguma atividade a qual nos destacamos. Foque em algumas delas. E se dedique. Estude muito. Educação causa admiração, acredite.

Aliás... Se você parar de querer ser famosinho e estudar, entenderá que ser famosinho é, no final das contas, uma grande bobagem. 


domingo, 1 de fevereiro de 2015

CHARLIE HEBDO. A SÁTIRA SATIRIZADA PELO IMPERIALISMO AMERICANO.



1. Se se considera a fórmula do rosto, tendo em vista a filosofia de Deleuze e Guattari, muro branco buracos de subjetividade, é possível assinalar dois momentos na história da civilização burguesa: 1) um primeiro em que a questão do rosto era simples, maniqueísta, porque funciona(va) afirmando o rosto europeu e inferiorizando os demais perfis humanos. Nessa primeira fase, que predominou até a metade do século passado, o muro branco da sociedade capitalista era pincelado por marcas subjetivas antinômicas, como branco e negro, centro e periferia, colonizador e colonizado, homem e mulher, heterossexual e homossexual, sempre positivando o primeiro termo, fundamentalmente europeu, em detrimento do segundo, basicamente não europeu; 2) na segunda fase da civilização burguesa, principalmente após a Segunda Guerra Mundial, a estrutura maniqueísta dos rostos sociais se multiplicou como as mercadorias e, ainda como estas, entrou num processo de superprodução de traços subjetivos agitados pela ideologia liberal.

2. A primeira fase, de estrutura maniqueísta, constitui a base do imperialismo europeu. A segunda, por sua vez, é o modelo de realização do imperialismo americano. Em relação a esses dois imperialismos dominantes da civilização burguesa, um teórico instigante para analisá-los é Franz Fanon; e o é não porque tenha tematizado conscientemente essa questão mas porque constituiu um autor de transição do imperialismo europeu para o americano, principalmente se forem considerados comparativamente seus dois principais livros teóricos, Os condenados da Terra (1961) e Pele negra, máscaras brancas(1952).
3. Em Os condenados da Terra é possível evidenciar uma posição militante abertamente maniqueísta ao imperialismo europeu, identificado como um sistema de bens que apenas será superado se ocorrer uma descolonização completa, capaz de abarcar todos os âmbitos da vida. O rosto do europeu nessa obra de Fanon se espalha por todo o socius e se constitui como o centro sísmico de um aparelho social/colonial absolutamente implacável com os colonizados; e assim é tanto mais inflexivelmente avassalador quanto mais o ponto de vista a ser considerado for o do excluído coletivo, esse anônimo cuja existência é sem rosto, logo inexistente, logo naturalmente violável, necessariamente sacrificável, matável.
4. O rosto do imperialismo europeu é bem mais que o rosto em si, branco, do colonizador. Como a imagem estereotipada de Cristo, é antes a rostidade de uma religião: o sistema de bens institucionais da civilização burguesa, contra o qual não resta outra alternativa senão a resposta incontornável de uma violência oposta, impassível às ilusões do “não é bem assim”, ou de qualquer outra forma usual ou não de contemporizar o pior, a invasão colonizadora, geralmente camuflada pelo humanismo eurocêntrico, esse inesperado espetáculo que ora se traveste de conhecimento, ora de sublimes artes, de refinados comportamentos, de últimos modelos tecnológicos, ora em simpáticos sorrisos; humanismo que é na verdade um sistema de aparência cujo strip-tease é preciso afrontar para vê-lo tal como é: terrorismo inominável contra os povos do mundo.
5. Parte desse humanismo terrorista do imperialismo europeu, em Os condenados da terra, é a ilusão essencialista presente em segmentos diversos dos povos colonizados, quando, em face de um presente inabitável, tende a clamar por um retorno a um idílico passado pré-colonial. Não existe volta, diz com todas as letras Fanon. É por isso que a resposta do colonizado contra o sistema de aparência do colonizador deve ser uma só: violência revolucionária, compreendida como negação e afirmação; negação sem titubear ao sistema de bens do colonizador e também aos sísifos dilemas eternos do colonizado; afirmação sem autoilusão de um mundo sem colonizadores e sem colonizados, logo sem imperialismos.
6. Publicado nove anos antes, Pele negra, máscaras brancas (1952)se constitui como (sem desconsiderar seu brilho próprio) um singular suplemento ao livro Os condenados da terra, pois, mais que matizar a violência da rostidade dominante, analisa as psicopatologias inscritas na relação entre colonizado e colonizador; do branco e do negro, designando-as como metafísicas do branco e do negro, de colonizador e de colonizado; metafísicas que indiciam, no jogo de máscaras entre negros e brancos, colonizadores e colonizados, um período sempre infantil da História do homem, razão suficiente para concluir: é o homem que precisa se liberar de suas taras identitárias, de seus fundamentalismos étnicos, de suas neuroses derivadas de seus valores ancorados em sistemas de ideais de ego e reificação, independente se é branco ou se é negro, se é colonizador ou colonizado, se é pobre ou se é rico.
7. Ainda tendo em vista Pele negra, máscaras brancas, para Fanon, o homem precisaria se liberar de si mesmo, de sua humanidade, seu humanismo, suas máscaras herdeiras de relações de força, inclusive tendo em vista a relação homem/não homem, porque não somos nada se se considera que ser algo seja ser superior. O homem necessita liberar-se, emfim e em começo, de sua infância opressora e oprimida, de suas síndromes, de seus narcisismos, inventando-se revolucionariamente na e pela igualdade.
8. O que define Fanon como um autor de transição entre as artimanhas humanistas e maniqueístas do imperialismo europeu e as diluições ilusórias do imperialismo americano tem talvez relação o com o que Lacan dizia a respeito do inconsciente: isso pensa. É no plano do pensamento do inconsciente que o imperialismo americano pode ser analisado como uma inversão da teoria de Fanon, pois, se em Os condenados da Terra é possível ler uma consciente recusa ao pacote de bens do imperialismo europeu e se em Pele negra máscaras brancas a metafísica entre brancos e negros pressupõe que estes transvestem aqueles num contexto em que ambos se mascaram neuroticamente, aquilo que o imperialismo americano fez e faz é manter tudo como era antes, mas da seguinte forma: fazendo com que os condenados da Terra se tornem as máscaras negras e/ou colonizadas da pele branca e /ou colonizadora.
9. O imperialismo americano é mais europeu do que o europeu e o é expandindo-o. Abstrai o rosto branco tornando-o efígie do dólar e o ancora não apenas no petróleo mas em qualquer outro rosto. A ligação dólar/petróleo, eixo de seu domínio, não apenas o associa aos fundamentalismos islâmicos mas também às máscaras dos condenados da Terra, que são igualmente sua fonte primária ou seu petróleo betuminoso, razão pela qual pode ser analisada também como dólar/rostos não brancos ou simplesmente dólar/máscaras negras.
10. Sob o ponto de vista do domínio americano, a fórmula pele branca/máscaras negras equivale, nesse sentido, a dólar/rostos não europeus num contexto planetário, insistimos, em que tudo é máscara, inclusive as esquerdas, o imperialismo europeu, os valores ocidentais, os países, as línguas, os povos, as moedas, classe sociais, a liberdade de expressão. As máscaras são, portanto, o fundamento do imperialismo americano. É por isso que elas se tornam cada vez mais fundamentalistas e é igualmente por isso que elas são máscaras negras, expressão que usamos com sentido de máscaras de alteridades, razão suficiente para deduzir que estas, assim como o petróleo, são o verdadeiro ponto de apoio do dólar, seu padrão ouro, não sendo circunstancial que se espalham e se multiplicam, sem teto, assim como ocorre com o dólar, narcisicamente.
11. Se, para Fanon, a relação entre classe social é abstrata e universal embora se viva de forma concreta e a raça é imanente e singular, um paralelo talvez possa ser realizado com a equivalência entre pele branca, entendida como abstrata efígie no dólar, e petróleo, compreendido como imanente âncora para o dólar, formando o petrodólar. No contexto do imperialismo americano, o dólar substitui a classe social, ocupando a sua universalidade abstrata e assim como esta adquire, embora seja apenas uma moeda, uma realidade concreta. Por outro lado, os rostos, as alteridades, o petróleo, as máscaras negras, enfim, são vividas de forma imanente e singular, tendo o dólar como seu verdadeiro deus.
12. É nesse sentido, pois, que é possível falar em fundamentalismo como o traço que define o imperialismo americano, deixando claro que o fanatismo islâmico é apenas um sintoma de uma humanidade igualmente fanática: pela efígie do dólar! Assim, se o imperialismo americano se constitui como inversão do pensamento de Fanon (ou mesmo de Marx) é porque ele transformou a pele branca dólar em uma abstrata universalidade, substituindo as classes sociais, em contextos diversos em que estas também se tornam singulares e imanentes. Logo: pontos de apoio para o dólar – a pele branca do mundo.
13. EmPele negra, máscaras brancas, o axioma racista da pele negra é: quando me amam me dizem que é apesar de minha cor e quando me odeiam me dizem que não têm relação com minha cor. Tendo em vista o imperialismo americano, esse axioma racista contra a pele negra assume cada vez mais outra configuração, a saber: se me amam me dizem que é apesar de não ter dinheiro (dólar); se não me amam dirão que não é pelo fato de eu ser pobre, razão suficiente para concluir o óbvio: mais que nunca a potência de alteridade, a verdadeira pele negra do mundo, é pobre, os deserdados da Terra.
14. Tendo em vista o modelo de realização do imperialismo americano, com sua fórmula bombástica pele branca/dólar igual âncora cambial nas máscaras negras/petróleo do mundo contemporâneo, alguns imperativos categóricos da regra do jogo, sob o ponto de vista da liberdade de expressão, podem ser assim comunicados: agitem-se, alteridades da Terra, em nome do dólar! Expressem-se de forma fundamentalista, máscaras negras de todos os rincões! Sejam vocês mesmas, mulheres, gays, negros, muçulmanos, ocidentais, orientais!
15. O verdadeiro deus do mundo é a pele branca/dólar como efígie do capital planetário. Para alcançar a graça dele é preciso que as alteridades se expressem a partir de uma liberdade fundamentalista, baseada no corpo a corpo do ódio, da divisão, do preconceito, do racismo.
16. Se o dólar é o europeu tornado efígie e o petróleo são as alteridades metamorfoseadas em buchas de canhão, aquele, o dólar, é o humanismo ocidental; e estas, as alteridades, são o strip-tease encarnado do terror.
17. O imperialismo americano, portanto, funciona como o banco central do mundo. Sua verdadeira liberdade de expressão é a que diz respeito ao poder soberano de emitir dólar (pela branca) por conta própria, ilimitadamente. Para tanto, sabe que precisa agitar as máscaras negras do mundo, dividindo-as ilimitadamente.
18. A contradição de base desse inversamente proporcional sistema de equivalência se inscreve no dado óbvio de que as máscaras negras (petróleo) são recursos primários limitados. Para dar conta desse imbróglio, o imperialismo americano necessita um total domínio das tecnologias midiáticas, porque estas são o meio através do qual virtualmente é possível produzir ilimitadamente (leia-se editadamente) as máscaras negras (petróleo) fundamentalistas.
19. A liberdade de expressão falsamente universal da pele branca/dólar como substituto humanista da luta de classes é a sua ancoragem bombástica nas liberdades de expressão das peles negras/petróleo do mundo, como realização divisionista da luta de classes, ilimitadamente editável no espetáculo midiático a serviço do imperialismo americano, que torna tudo valor de troca igualmente ilimitado, satirizando os valores de uso.
20. Sob o ponto de vista do imperialismo americano, liberdade de expressão, nesse contexto, é isto: confusão, ódio entre oprimidos, divisão dos trabalhadores, como realização da universalidade abstrata, porém concreta, do dólar – valor de troca que transforma as peles negras, valores de uso, em máscaras negras, entendidas como valores de troca ou simplesmente escambos da pele branca (dólar).
21. O imperialismo americano, portanto, com sua fórmula pele branca (dólar)/ máscaras negras/petróleo alimenta o fundamentalismo expressivo das alteridades, com o objetivo de dividir os trabalhadores do contemporâneo, em escala planetária.
22. A liberdade de expressão, por isso mesmo, é a que nos divide, nos equivoca, nos faz odiar a gente mesmo, em nome do deus pele branca dólar.
23. A eficiência do imperialismo americano tem relação com o fato dele ter encontrado um modelo planetário para a luta de classes, ancorada na liberdade de expressão do ódio de trabalhador para trabalhador, do empregado para o desempregado, de rosto para rosto, ou, simplesmente, para dialogar com Fanon, de imanência singular das e nas pelas negras em detrimento da abstração universal da luta de classes.
24. Tudo é rosto e todos os rostos podem ser âncoras para o deus (pele branca) dólar, donde seja possível deduzir que tudo pode ser religião, fundamentalismo. Maio de 68, sob esse ponto de vista, por mais instigante que tenha sido, se tornou um rosto religioso a serviço do imperialismo americano, que edita e reedita a tudo, transformando a liberdade de expressão dos rostos das alteridades em energia de combustão de seu domínio planetário.
25. Pelo fato de o dólar deus (pele branca) ter substituído a luta de classes como universalidade da civilização burguesa, reeditando-a por meio da liberdade de expressão das máscaras negras dividindo-se atomicamente, maio de 68 se tornou também máscara negra, mais um ponto de ancoragem para o deus dólar (pele branca), não sendo circunstancial, sob esse ponto de vista, que seus herdeiros sejam os mais estilizados narcisos, geralmente cínicos, do contemporâneo. São, com raríssimas exceções, uns porra-loucas reacionários quanto mais se expressam livremente.
26. É aqui que uma metamorfose curiosa ocorreu com os rostos contemporâneos (claro, isso inclui os ainda vivos) de maio de 68. No geral, se apresentam como despojados, sexualmente liberados, mas quando o assunto é o mundo universal/concreto da opressão de classe, riem satiricamente. Dizem, debochando, que já não estamos no século 19, que não existem classes sociais, que o mundo é outro e, de forma maniqueísta, dizem que todo maniqueísta é burro. Além do mais, é comum se apresentarem orgulhosamente como laicos, mas logo se nota que adoram o deus dólar (pele branca). São uma caricatura deles mesmos, satíricos com quase tudo, menos com a presunção deles, menos com a multiplicidade ambulante deles, menos com o vinho caro – menos com o dólar (deus olímpico, pele branca). São enfim e em começo uns ultramodernos estilizados, reacionários.
27. Embora lamentamos a morte de todos os assassinados do jornal satírico francêsCharlie Hebdo, este tem mantido uma linha editorial herdeira da geração capturada de maio de 68, ao se expressarem livremente por meio de uma sátira preconceituosa por partir do ponto de vista do humanismo ocidental, desvinculando assim este do seu lado nu: o terrorismo.
28. Denunciar satiricamente o strip-tease dos fanatismos religiosos sem considerar sua relação com a vestimenta humanista do sistema de opressão ocidental é ser simplesmente uma arma de guerra dos imperialismos europeu e americano.
29. A sátira é um gênero diabolicamente divino, singular, mas quando debocha, carnavalizando de baixo para cima, as idealidades, os rituais e as mistificações ideológicas dos poderosos, principalmente tendo em vista o estilo de vida deles, na sua configuração histórica, laica, supostamente humanista.
30. A sátira se inscreve como o horizonte insubstituível da liberdade de expressão, dilatando-a criativamente, quando, avacalhando, retrata os poderes instituídos de uma dada época em flagrante posição de cócoras, como animais, como risíveis, como mortais.
31. A sátira é a liberdade de expressão, quando desmistifica as religiões, (no geral vividas como tradições históricas, como instituições respeitáveis) dos grandes poderes de sua época.
32. A sátira é o gênero dos gêneros quando carnavaliza as hierarquias, as táticas e estratégias dos plutocratas, pondo-as de quatro, fazendo-as latir, grunhir, escorregar nas suas contradições, peidar.
33. A sátira é magnífica quando inverte a ordem cínica do mundo, ao passar uma rasteira em tudo que é alto, divinizado, reverenciado, exclusivo, com muita gargalhada, escárnio, plasticidade, ousadia, petulância.
34. A sátira, enfim e em começo, abre janelas para o porvir quando, desmistificando-nos despudoradamente, não apenas demonstra que somos todos uns bichos humanos, mas também quando denuncia as desigualdades, pois só assim será a revolução do riso, desautorizando, no nosso presente, principalmente o Ocidente, com suas guerras infinitas, o Ocidente e suas multinacionais criminosas, o Ocidente e seus dólares peles brancas, o Ocidente e seus imperialismos genocidas travestidos de civilização, de poesia, de refinamento educacional, de saberes respeitáveis, de rigores.
35. A sátira é o horror dos rigores ideológicos dos vencedores de uma dada época, pois lhes joga na cara a pantomima de suas aberrações genocidas, metamorfoseadas em humanismos.
36. A sátira pode ser o gênero dos gêneros quando, no contemporâneo, torna-se o strip-tease daquilo que o imperialismo americano designa como direitos humanos pois demonstra, ou pode fazê-lo, que estes são a aberração trágica, terrorista, do direito à vida coletiva, o mais sagrado de todos, porque é a condição fundamental para qualquer outro; porque é o princípio dos princípios, nascido do chão de existir – esse lugar em que todo riso é satírico não por natureza, porque a sátira jamais será natural, mas porque histórico, humano, demasiadamente humano; porque é de onde brotamos igualmente, para rirmos com os mais simples e não deles.
37. É precisamente por isso que satirizar as religiões tradicionais, o islamismo, o cristianismo, o judaísmo, como fazia e faz o jornal francês Charlie Hebdo, é não apenas uma ingenuidade mas antes de tudo uma crença fundamentalista advinda da pior forma de religião possível, a saber: a que confunde a dimensão laica do chão de existir, que é a igualdade a que estamos desafiados a inventar, (por meio da luta de classes planetária) com a religião dos oligarcas e principalmente com a religião do imperialismo americano, com sua falsa universalidade (não) humanista dólar (pele branca); e o é por uma razão muito simples: o imperialismo americano trabalha todos os dias do ano com o objetivo de transformar a humanidade toda em refém do ódio religioso tradicional, inclusive nos transformando em religiosos subjetivos.
38. Nada mais conveniente, para o imperialismo americano, portanto, que a perspectiva editorial satírica praticada pelos cartunistas do jornal Charlie Hebdo. Ao achincalhar as religiões milenares, o faziam e o fazem como fieis colaboradores da mais fanática delas, no contemporâneo: a rostidade divinizada dólar (pele branca), abstração monetária ancorada no ódio religioso, usado como bomba de combustão alimentada pelas máscaras negras de todo o planeta, além de ser igualmente manipulada como peça geopolítica contra China e Rússia e também, o que muito é pior, como pretexto para invadir países, bombardeá-los, não sendo circunstancial os exemplos de Iraque, Afeganistão, Líbia, Palestina, Síria, Sudão, Somália, Iêmen; o mundo todo.
39. Se, vivos, os caricaturistas de Charlie Hebdo eram nada mais nada menos que os satíricos satirizados ou idiotas úteis da pele branca (dólar) abstração monetária do imperialismo americano, mortos se tornaram combustível para a inclusão/combustão de mais um grupo humano fanaticamente bombástico a seu serviço: os europeus, instigados à liberdade de expressão para se tornarem o Emirado Cristão Europeu.
40. Em nome de Cristo, do humanismo eurocêntrico, da religião laica ocidental, os tambores do ódio religioso agitam a Europa, especialmente o país da Revolução Francesa, preparando-se para futuras vetustas guerras contemporaneamente milenares.
41. Curiosamente, a religião mais fanática de todas, o sionismo, strip-tease do judaísmo, é também a mais, por paradoxal que pareça, laica. É ela que arregimenta seus mártires, a saber: o Emirado Islâmico, o Emirado Europeu, o Emirado Midiático, em nome da pele branca/dólar do imperialismo americano, sendo a sua religião milenar.
42. O império do caos, a pele branca (dólar) estadunidense, quer que todos sejamos fanaticamente (o que significa belicosamente) sua âncora petrolífera explosiva, dividindo-nos para nos tornar senhores da liberdade de expressão do ódio a nós mesmos. Com isso, satiriza-nos, pondo-nos de quatro.
43. Para romper essa aliança suicidária, entre a pele branca (dólar) abstração universal com sua equivalência carnal nas máscaras negras (petróleo), agora com a inclusão do Emirado Cristão Europeu, Fanon ofereceu-nos a resposta: revolução criativa, apta a liberar o homem de seus infantilismos, se e quando estiver lastreada em outro sistema de equivalência, a saber: da abstração (sempre vivida como concreta) universal da luta de classes ancorada nos povos do mundo, singulares e imanentes, tendo em vista um combate sem tréguas ao imperialismo europeu, ao americano e/ou a qualquer outro.
44. O sistema de equivalência revolucionário, para o contemporâneo, é este: abstração universal da luta de classes, vivida como valor de uso no cotidiano dos povos, o que só será possível se aprendermos a satirizar a sátira que o sistema midiático corporativo realiza sem cessar da humanidade inteira, editando e reeditando-nos ilimitadamente como reificados e reificantes; como subjetividades isoladas, divididas, presunçosas, infantis.
45. A luta de classes, portanto, mais do que nunca necessita se inscrever no interior do sistema midiático, sem ilusões com as novas tecnologias, no geral vividas como suportes virtuais da liberdade de expressão da e pelo dólar (pele branca); suportes que têm como strip-tease os valores de uso transformados Emirado Islâmico, al-Qaida, talibãs, o Emirado Cristão Europeu, alteridades narcísicas, isoladas.
46. Para manter o sistema de abstração ilimitado do dólar (pele branca), o imperialismo americano ao fim e ao cabo satiriza os valores de uso e o faz agitando-os fanaticamente, explosivamente.
47. Ou nos editamos planetariamente, afirmando o porvir, como valores de uso, contra toda abstração monetária e seus valores de troca entre máscaras negras isoladamente/satiricamente editáveis; ou devoraremos, como parasitas, o futuro, neste presente em combustão objetivamente subjetiva.
(Texto de Luís Eustáquio Soares)

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Luis Eustáquio Soares é poeta, escritor, ensaísta e professor de Teoria da Literatura no Departamento de Línguas e Letras da Universidade Federal do Espírito Santo.

sábado, 31 de janeiro de 2015

CRÔNICA DE SÁBADO: QUANDO O PASSADO TE CONDENA.


“Em 1925, surgiu um novo e sério problema: São Paulo passou por uma seca severa.”
Roniwalter Jatobá em “O Jovem Monteiro Lobato”

Não é a primeira vez que uma seca assola a terra da garoa e, Aqui no Deserto constatamos, o mesmo agora preocupa o Espírito Santo. Não entendo bulufas do assunto, mas fico me perguntando o que ocasionou aquela tragédia datando de quase um século. Porque na grave estiagem atual já colocaram a culpa num bocado de coisas: na falta de consciência ambiental dos “homens humanos”, nos desmatamentos e queimadas, na poluição insana das fábricas e dos automóveis e, especialmente, na incompetência dos tucanos e também no governo da Dilma.

A tragédia de 1925 foi muito séria e, como agora, também ocasionou interrupções no fornecimento de energia elétrica. Monteiro Lobato, que era um tremendo visionário, pioneiro do setor livreiro no Brasil, quebrou de verde e amarelo:

“Aí, por causa da falta de água, a Light foi obrigada a racionar energia, já que as geradoras da empresa eram hidrelétricas. Consequência: as máquinas da editora não puderam funcionar. – Eu podia prever tudo no negócio, menos uma seca do Ceará em São Paulo – lembraria Lobato. - Se durasse um mês, tudo estaria salvo. Mas durou um ano. Verdadeira calamidade. E a editora, que estava endividada, afundou de vez. A solução não poderia ser outra: pedi autofalência.”

Esse triste episódio vivido pelo pai da literatura infantil brasileira dá um medo danado de que os problemas causados por mais de um mês sem chuvas na Grande Vitória estarem apenas começando.

Antes de prosseguir vale lembrar aquela advertência atribuída a Che Guevara “um povo que não conhece a sua história está fadado a repeti-la”, porque alertas relativos à dita “questão hídrica” vem rolando desde há muito. Em 1972 na primeira edição da revista “Espírito Santo Agora”, o mais célebre defensor do meio ambiente no Espírito Santo, Augusto Ruschi, deu uma entrevista famosa na qual fez denúncias contra os desmatamentos praticados pela então Aracruz Florestal, a poluição do rio Formate pela Braspérola e o - até hoje insolúvel - problema do pó de minério.

Aquelas pioneiras ponderações ambientais foram rechaçadas veementemente pelo articulista Gutman Uchoa de Mendonça, numa longa carta publicada na edição seguinte do periódico. Colocando-se simplesmente na posição de assessor, provavelmente de alguma das empresas mencionadas ou do Governo, Uchoa achou por bem dar ao futuro patrono da ecologia no Brasil uma lição de biologia:

“Muitos brasileiros estão se impressionando muito com a questão relativa à poluição e passaram a ver em tudo agente contaminador até o pó de minério que levanta do carregamento dos navios e é levado pelo vento às residências. (...) Nunca, em parte alguma do mundo o pó de minério foi agente poluidor como não o são também os dejectos (sic) humanos lançados à maré de forma ordenada. (...) A entrevista do sr. Augusto Ruschi  é de um primarismo lamentável e demonstra perfeitamente o quanto distante ele anda de um problema que para se ter conhecimento não é preciso ser sábio ou coisa parecida mas simplesmente observador, ler e aprender e ter uma noção do desenvolvimento biológico que habita a natureza e que a torna num dos mais extraordinários espetáculos.”  

Pior foi o debate para governador em 1994, no qual a possibilidade de escassez das reservas hídricas era especificamente motivo de preocupação, mas também de discussões pitorescas. De um lado o médico Vitor Buaiz, homem de postura comedida e educada, do outro o candidato ultra-direita-popular Cabo Camata, um notório e assumido ignorante nas acepções que o termo permite.

Antecipando o estilo de apresentadores esporrentos como Ratinho – que apareceu pra fama no SBT em 1998 empunhando um porrete – Cabo Camata tinha como objeto fálico uma infame “vara de gurubumba”. O pesquisador Ueber José de Oliveira tem um texto interessante sobre esse pleito - publicado no volume 11 da revista Ágora de 2010 - no qual cita Perly Cipriano para fornecer uma dimensão do fenômeno:

“Cabo Camata se lança candidato a governador (...) sem programa nenhum, apenas dizendo que ia usar a gurugumba para combater os bandidos e os corruptos e um tempo de televisão muito pequeno, mas ele bateu naquela mesma tecla da gurugumba, um discurso seco, direto e teve a Polícia Militar como um grande cabo eleitoral”.    

Nessa brincadeira o candidato menos provável foi para o segundo turno, desbancando pesos pesados da política como o ex-governador Max Mauro e a atual senadora Rose de Freitas. Só para dar uma ideia do nível do debate, Vitor Buaiz perguntou o que o adversário pretendia fazer com relação à questão hídrica. Reagindo como quem “tá preparado”, o candidato respondeu: “Você acha que eu não sei o que é esse negócio não? É água!” E lá pelas tantas alertou os eleitores para uma questão social nada importante: “Vocês sabiam que esse homem num come carne?! Se vocês chamarem ele pra um churrasco na sua casa ele num vai comer não!”  

Ainda bem que a gurugumba perdeu, mas foi por pouco. Já o que aconteceu no governo de Vitor Buaiz... Bom, aí é outra historia. 

P.S. Dejair "Cabo" Camata faleceu no dia 26 de março de 2000 com apenas 43 anos.


Juca Magalhães é músico, escritor e ex-integrante do grupo “Pó de Anjo”.  É um dos mais requisitados mestre de cerimônias do Estado, com atuação em eventos públicos e privados. Autor do blog a “Letra Elektrônica” e textos publicados no Caderno Pensar, do Jornal A Gazeta. É autor dos livros “O Livro do Pó” e “Da Capo - De Volta às Origens da Orquestra Filarmônica do Espírito Santo”. Magalhães também trabalha na divulgação e desenvolvimento de projetos voltados para educação e performance de música, sobretudo canto coral, clássica e popular.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

A FIGURA DO ABISMO



O cenário: nossa sociedade, em que os sujeitos se encontram profundamente agenciados e o índice do que tenha ou não qualidade na manifestação artística deixa de ser os aspectos artísticos e filosóficos e se transfere para o seu potencial de entretenimento, e portanto a capacidade da obra reduzir-se a mero objeto mercantil consumível por um lucrativo número de pessoas

em que a “arte culinária” (termo cunhado por Theodor Adorno ao se referir a essa falta de profundidade) domina a percepção e se faz positivamente valorada; na qual, em se tratando do texto ficcional em prosa, logra ser julgado “bom” pela avaliação mediana apenas o enredo cujos códigos de interpretação se fundam na realidade concreta para crismá-la no imaginário. O evento: o recente lançamento pela Secult de O sismo particular, livro de contos de Herbert Farias. O terceiro do autor, desde 2009.     

Os 37 contos da obra se inscrevem no insólito, discurso ficcional a respeito de que não se pode afirmar exatamente recuse a realidade concreta, mesmo porque é preciso a contraposição para, mediante o contrataste, instaurar-se o insólito. Sua estratégia é inviabilizar a leitura realística e estruturada na verossimilhança externa, ou seja, o discurso insólito nega o real enquanto modelo que posa para a edificação do texto, esse real fetichizado como uma pin-up. Ao fazer isso, o insólito subverte a lógica racionalista, forçando uma leitura noutras bases.

Herbert não facilita a vida daquele leitor acostumado a uma semântica sem abalos sísmicos, a tramas comportadas. Sob esse aspecto, sua prosa dialoga com a de outros autores capixabas, como Bernadette Lyra (mormente em seus primeiros trabalhos) e Miguel Marvilla (1959-2009), salientando que boa parte da produção contística deste era francamente um exercício poético, ao passo que em Herbert o estranhamento ocorre muito mais pela trama, o que não impede a presença da prosa poética eventual, como em “Nos fones de ouvido do carcereiro, impessoas antilúdicas explodiam crianças e velhos em volume miserável” (No cativeiro), embora estejam nos fenômenos e situações as marcas mais relevantes do insólito em O sismo particular. No primeiro caso temos, por exemplo, A nuvem, em que uma substância química fabricada em laboratório, e pairando sobre uma cidade devido a um acidente, induz os moradores a assassinarem seus desafetos; no segundo quesito, em Memorial do triunfo temos “A caixa que guarda meus charutos épicos são as costelas cristalizadas de um menino de oito anos, cujo pai recusou-se ao pagamento de impostos”.

Em O sismo particular, o percurso textual entre superfície e profundidade é a figura do abismo, uma das constantes do livro. Com relativa economia vocabular, a queda é um dos instrumentos que conduz tramas e personagens a um universo nada simples, bem abstrato e não reificado, mas, apesar disso, profundamente correlato ao real em função das vias simbólicas abertas. Assim, quando Teroxyca, Epílogo incansável e Damião falam de queda, esse abismo fabulado no insólito nos dá de certa maneira a sensação de concretude não apenas porque a vida contemporânea é abissal: é como se, ao estilhaçar o verossímil, dos destroços fosse mostrar-se uma verdade imamente que, perpetrada na ficção, dialogasse com o real por fazer parte de um universo maior, uma grande estrutura de sentimento.  

(Texto de Eduardo Selga publicado em “C2 + Pensar”, do jornal A Gazeta, em 17 de janeiro de 2015)


Eduargo Selga é professor de Língua Portuguesa e mestrando em Literatura pela UFES.

sábado, 13 de dezembro de 2014

LUIZ GONZAGA 102 ANOS: CONFIRA 10 GRANDES CANÇÕES.



Num tempo em que a produção artística era focada no eixo sul - sudeste, coube a uma voz acompanhada de sanfona amolecer a aridez e hostilidade da caatinga em forma de música. Luiz Gonzaga detinha a arte de inserir melodia em enredos sobre a condição desfavorável da terra onde nasceu. Em 2014, o Brasil comemora 102 anos de nascimento de Luiz Gonzaga e celebra o legado deixado por um dos maiores ícones da história artística brasileira. Como homenagem, segue uma seleção de 10 grandes canções do Mestre Lua:




4 – A vida do viajante (https://www.youtube.com/watch?v=XscHO3K-upY)


6 – O xote das meninas (https://www.youtube.com/watch?v=zT8y4brLke0)



9 – No meu pé de serra (https://www.youtube.com/watch?v=JZZycecHqI4)

10 – Juazeiro (https://www.youtube.com/watch?v=7VupcnZJVSg)

LUIZ GONZAGA 102 ANOS: O NORDESTE NO FOLE DA SANFONA.



Luiz Gonzaga levou a cultura nordestina para o Brasil e o mundo


Em 13 de dezembro de 1912, nascia Luiz Gonzaga, o rei do baião. Gonzagão foi sanfoneiro, cantor, compositor e principal responsável pela valorização dos ritmos nordestinos no século XX. Foi ele quem simbolizou o que há de melhor na música nordestina, e primeiro artista a assumir sua nordestinidade (representada pela a sanfona e pelo chapéu de couro). Cantou as dores e os amores de um povo que não possuía voz. Após se transferir para o Rio de Janeiro em 1939 e passar a se apresentar em bares e cabarés, participa do programa de Calouros da Rádio Tupi (de Ary Barroso) e ganha o primeiro lugar, com a música "Vira e Mexe", o qual tinha influências das canções nordestinas. Luiz até então só tocava tangos e fados, mas após ouvir um conselho de um amigo para apresentar as boas criações do distante nordeste, compõe dois clássicos: "No meu pé de Serra" e "Vira e Mexe". O prêmio da rádio abriu caminho para que pudesse vir a ser contratado pela emissora Nacional, é descoberto e levado pela gravadora RCA Vitor para gravar seu primeiro disco. O sucesso foi rápido, vários outros discos foram gravados, mas só em 11 de abril de 1945 grava seu primeiro disco como sanfoneiro e cantor, com a música "Dança Mariquinha". O êxito continuou, Luiz Gonzaga dominou o mercado fonográfico brasileiro das décadas de 40 e 50.

Costumes


No livro “Vida do Viajante: A Saga de Luiz Gonzaga” (1996), de Dominique Dreyfus, Gonzaga revelou: “Eu queria cantar o Nordeste. Eu tinha a música, tinha o tema. O que eu não sabia era continuar. Eu precisava de um poeta para escrever aquilo que eu tinha na cabeça, de um homem culto para ensinar as coisas que eu não sabia. Eu sempre fui um bom ouvidor. Cheguei até a enganar que era culto!”. Para representar o povo do nordeste, mostrar sua vida, seus costumes e sua variedade lingüística, Gonzagão se juntou, primeiramente, ao advogadodeputado federal e compositor cearense Humberto Teixeira, e, logo depois, ao compositorpoeta e folcloristapernambucano Zé Dantas. Formado advogado, Humberto Teixeira preferiu trabalhar com música. O sucesso logo viria quando foi chamado por Gonzaga para seu projeto de popularizar a cultura nordestina no Rio de Janeiro. Em pouco tempo, os dois já era conhecidos como rei e doutor do Baião, ritmo que se tornou fenômeno em todo o Brasil e no mundo. Com o Mestre Lua, compôs vários clássicos, tais como “Baião”, “Asa branca” “Assum preto”, “Juazeiro”, “Paraíba”, “Qui nem jiló, “Respeita Januário” e “No meu pé de serra”.


Já Zé Dantas, homem tímido, mostrou suas composições ao ilustre Gonzagão ao conhecê-lo. O Rei do Baião, entusiasmado, aprendeu algumas músicas e prometeu gravá-las. Na década de 50, Dantas vai residir no Rio de Janeiro. Nesse período, atinge o ápice da parceria com Luiz Gonzaga, passando a obter lucros com o sucesso de suas canções. Zé Dantas deixou um amplo e considerável cancioneiro que contribuiu para o grandioso sucesso de Luiz Gonzaga. Suas parcerias são verdadeiros clássicos da música popular brasileira, como “Vem Morena”, “Acauã”, “Riacho do Navio”, “A Volta da Asa Branca”, “O Xote das meninas” e “Sabiá”. Destarte, ambas as parcerias popularizaram o baião e influenciam muitos músicos da música popular brasileira, entre eles: Gilberto Gil, Caetano Veloso, Belchior, Sivuca, Dominguinhos, Fagner, Zé Ramalho, Raul Seixas, Elba Ramanho, Geraldo Azevedo, Alceu Valença, Zeca Baleiro, entre outros.

O baião, em 1950, já era um ritmo conhecido de leste a oeste. Era 'A dança da moda', vide o título do baião de Luiz Gonzaga e Zé Dantas. Ademais, o ritmo atravessou as fronteiras da pátria e ganhou o mundo. Hollywood foi o primeiro a se encantar pelo brilho da dança brasileira, no filme “Nancy Goes to Rio" (“Romance Carioca”), o standart “Baião” (mesmo estrupiado) já aparecia, e alguns países da América Latina e Portugal contagiavam-se, também, pelo toque pau-de-arara. Em 1956, a cantora japonesa Keiko Ikuta gravou as músicas “Baião de dois” e “Paraíba”, aqui mesmo no Brasil, com acompanhamento do próprio Luiz Gonzaga e seu conjunto. Tudo isso foi a consagração mundial do baião, de Luiz Gonzaga e da música brasileira, nem mesmo o samba havia chegado tão longe, conforme revela Assis Ângelo: “O baião ganhou o mundo com a pureza das armas da terra: sanfona, triângulo e zabumba”.


O grupo brasileiro "Forro in the Dark", formado por músicos residentes em Nova York, gravou em 2006 o cd "Bonfires of São João", que traz David Byrne, vocalista da banda Talking Heads, interpretando "Asa Branca". Byrne tem uma relação muito grande com a música brasileira e também faz uma participação no documentário sobre a vida e obra de Humberto Teixeira, "O homem que engarrafava nuvens".

Asa branca


A história mais interessante e pitoresca envolvendo a figura de Luiz Gonzaga foi a de que o grupo britânico The Beatles gravaria “Asa branca”.  Nos anos 60, o Velho Lua andava um tanto apagado. O povo só queria ouvir Jovem Guarda e Tropicália. E, claro, o quarteto inglês. Como não poderia deixar de ser, a novidade atiçou a imprensa. Foi entrevista para todas as mídias, convites para shows, polêmica nas rodas de conversas, porém, os rapazes de Liverpool não estavam entre os intérpretes da canção. A história não passava de fantasia de Carlos Imperial. O fato é que a canção ficou conhecida a partir da gravação de Gonzagão e as de outros 310 intérpretes. Até um grego, Demis Roussos, gravou uma versão de “Asa Branca”, chamada de “White Wings”. O roqueiro brasileiro Raul Seixas também fez uma versão em inglês para “Asa branca” (“White wings”). A canção, composta em parceria com Humberto Teixeira, se transformou no hino do nordeste.


O rei do baião faleceu no dia 2 de agosto de 1989. No entanto, seu legado é imenso e eterno. O Mestre Lua, por sua criatividade, tem lugar cativo na música popular brasileira. Na mais renomada biografia “Vida do Viajante: A Saga de Luiz Gonzaga” (1996), de Dominique Dreyfus, Gonzaga ponderou:  “Gostaria que lembrassem que sou filho de Januário e dona Santana. Gostaria que lembrassem muito de mim; que esse sanfoneiro amou muito seu povo, o Sertão. Decantou as aves, os animais, os padres, os cangaceiros, os retirantes. Decantou os valentes, os covardes e também o amor”.

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Saudades do Mestre Lua


Luiz Gonzaga teve influência forte e marcante para vários artistas da música popular brasileira e da cultura em geral. Seguem alguns depoimentos famosos sobre o Rei do Baião:

"É assim a música - não só a letra - de Luiz Gonzaga. Ela identifica a geografia física e humana do Nordeste de um modo flagrante e definitivo como um signo, que provoca o reconhecimento tácito por si mesmo evidente. É a evidência do inconsciente coletivo, um padrão arquétipo.


Por isso que a gente fala em raiz quando ouve Luiz Gonzaga. Por isso que a gente ousa empregar até essa palavra terrível: telúrico. Luiz Gonzaga é telúrico. Está na terra de nossa alma, da alma do nosso povo. É eterno."

(Nelson Xavier - ator, autor e diretor brasileiro. Depoimento contido no encarte do disco "Luiz Gonzaga - 50 Anos de Chão")

"Ele sempre batalhou muito para que a nossa voz fosse ouvida. É o Mestre Maior.Pelo trabalho que fizemos juntos, apenas por aqueles momentos maravilhosos, já me sinto gratificado pela profissão que escolhi. "


(Raimundo Fagner - cantor. Depoimento contido no encarte do disco "Luiz Gonzaga - 50 Anos de Chão")

"Dentre aqueles gêneros diretamente criados a partir da matriz folclórica, está o Baião e toda a sua família. E da família do baião Luiz Gonzaga foi o pai. Seu nome se inscreve na galeria dos grandes inventores da música popular brasileira, como aquele que, graças a uma imaginativa e inteligente utilização de células rítmicas extraídas do pipocar dos fogos, de moléculas melódicas tiradas da cantoria lúdica ou religiosa do povo caatingueiro, e, sobretudo da alquímica associação com o talento poético e musical de alguns nativos nordestinos emigrantes como ele, veio a inventar um gênero musical. Eu, como discípulo e devoto apaixonado do grande mestre do Araripe, associo-me às eternas homenagens que a História continuada prestará ao nosso Rei do Baião."


(Gilberto Gil - cantor e compositor. Prefácio do livro "Vida do Viajante: A Saga de Luiz Gonzaga", de Dominique Dreyfus)

"O mais importante artista criador que esteve na sustentação da música popular nordestina. Ele foi essa figura que, sem atentar muito para isso, deixou uma imensa obra para seguir e aprender para que ele continue sendo lembrado e sua herança jamais se perca."


(Dominguinhos - cantor, compositor e instrumentista em entrevista a André Dib, no Diário de Pernambuco)

"Enquanto Presley foi o "Cavalo de Tróia" da negritude num país racista, Gonzaga colocou o Nordeste, com sua cultura refinada e seus costumes peculiares, no mapa da MPB. Era um momento de urbanização do sudeste, em que nordestino era encarado como peão de obra, cabeça chata, ser inferior. O Rei do Baião desvelou a diversificada cultura deste povo, então encarado de forma pejorativa. Está entre os maiores de todos, os fundadores de escolas: Pixinguinha, Noel Rosa, Dorival Caymmi, Tom Jobim - e não muitos mais."


(Tárik de Souza - jornalista e crítico musical em entrevista a Cristiano Bastos, no site Rolling Stone Brasil)


(Texto de Ricardo Salvalaio publicado no Caderno Pensar, do Jornal A Gazeta, no dia 08/12/2012) - com alterações.