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quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

POEMA "TROPOR PROGRAMADO", DE JOÃO CARLOS BARCELOS RAMOS.


Torpor programado
Nebulei Por entre a turva do alvorecer
Na praia vapores frios, gélidos
Minha pele transformavam
Uma miragem fantástica inquietou
Minhas retinas

Pés que já não encontravam o chão
Pele que já não reagia ao tempero do vento
Visão do nada-tudo, enfim.
Consciência vaga
Torpor programado

Mas eu queria estar ali
No amargo irreal que adoça
O amargor do real
Mas a dor é cálice  infinito
Das emoções que atravessam os fatos

A ponte da fuga é íngreme
E escorregadia
Meu país, minha pátria amada
É o destino repetido nos meu passos
E olhos, e cenho.

Crio meus algozes
De escárnio e dor num vício amiúde
De negar-me, impune de prazer
E altivo, néscio e piegas
Meu umbigo que o mundo ignora.

João Carlos Barcelos Ramos é graduado em Letras Português pela Universidade Federal do Espírito Santo e pós graduado e Educação Especial e Inclusiva pela Faculdade Ateneu. Atua como professor de Língua Portuguesa na rede estadual de educação do Espírito Santo. Posta seus poemas, pensamentos, entre outros, em seu blog http://muralsarauvaral.blogspot.com.br/. 

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

AGENDA DA SEMANA

Confira o que rolará de melhor na semana cultural do capixaba (além do Carnaval, claro).


Hoje

Série A Vida de Rafinha Bastos
A série baseada em fatos da vida de Rafinha volta, começando com a história em que ele é expulso de casa e é obrigado a morar com o lutador de MMA Rodrigo Minotauro.FX, 24 a 28/2, 13h

Quarta-feira

Pré-Carnaval do Villa 
- Atrações: Estevão e Willian, Nando e Michel, SambAdm e DJs Mark Dias, Baduh e Máricio Tavarez Local: Villa Bohemia, Av. Jair de Andrade, 39, Itapoã - Vila Velha Horário: a partir das 22 horas Ingressos: Com nome na lista até meia noite, R$ 18 (feminino) e R$ 25 (masculino). Após e sem nome na lista, R$ 25 (feminino) e R$ 35 (maculino) Mais informações: 3075-0101 / 3075-0404

Série Os Millers
Estreia da nova série com Will Arnett como Nathan Miller, um homem que pensa que vai curtir a vida após o divórcio, mas descobre que serviu de inspiração para que seu pai também peça o divórcio. Com a separação, a mãe de Nathan passa a morar com ele e o pai se muda para a casa da filha, Debbie e a confusão está armada.TBS muitodivertido, 26/2, 21h

Quinta-feira

MPB - Heraclitto Macedo 
- Atrações: Heraclitto Macedo Local: Bananas Choperia e Restaurante, Rua Carlos Martins, 1.601, Shopping Outdoor (ao lado do Banco do Brasil), Jardim Camburi - Vitória Horário: 20 horas

Sexta-feira

Bloco Bleque 
- Atrações: participação especial de Edésio Mini Jagger e Chaka e Banda 522 Local: Rua da Lama, em Jardim da Penha - Vitória Horário: a partir das 16 horas Ingressos: grátis Mais informações: 99986-4177

Show - Flávia Mendonça 
- Atrações: Flávia Mendonça Local:Barra do Sahy, Aracruz Horário: 0 horas

Show - João Bosco e Vinícius 
- Atrações: João Bosco e Vinícius Local: Pontal do ipiranga, Linhares Horário: 23 horas Ingressos: grátis

Cinema. Estreia. Tudo Por um Furo
Continuação de "O Âncora - A Lenda de Ron Burgundy". Will Ferrell volta para mais uma aventura do âncora de TV Ron Burgundy. O elenco conta ainda com as presenças de Paul Rudd, Steve Carell e David Koechner. A direção é de Adam McKay.

Sem Escalas

Cinema. Estreia. Sem Escalas
Durante um voo de Nova York a Londres, o agente Neil Marks (Liam Neeson) recebe uma série de mensagens SMS enigmáticas, dizendo que um passageiro será morto a cada 20 minutos caso US$ 150 milhões não sejam transferidos para uma conta bancária. Inicialmente Beil não dá atenção à ameaça, mas quando o primeiro passageiro aparece morto ele inicia uma investigação em pleno avião sobre quem possa ser o assassino.

Show 
- Atrações: Banda Comichão Local: Praia Grande, Fundão Horário: 22 horas Ingressos: grátis

Música 
- Atrações: grupo Sensasamba, banda Simpatia, Tudublu, banda Esquenta Show, grupo Dibobeira, MC6 e KS10 Local: Itaoca e Itaipava Horário: a partir das 19 horas Ingressos: grátis

Show 
- Atrações: Trio Xamego (SP), Trio Candiero (RJ) e Filhos do Nordeste (RJ) Local: bar Forró, Itaúnas Horário: a partir das 23 horas Ingressos: R$ 20 (antecipado) e R$ 30 (no local) Pontos de venda: Café Brasil e no local Mais informações:

Exposição Ronaldo Azeredo: o mínimo múltiplo (in)comum - Uma trajetória poética

Exposição Ronaldo Azeredo: o mínimo múltiplo (in)comum
O MAES apresenta a exposição Ronaldo Azeredo: o mínimo múltiplo (in)comum – uma trajetória poética, que recupera a produção de um importante poeta do Concretismo, movimento marcante da literatura brasileira a partir dos anos 1950.

Sábado

Carnaval Taikô 
14h e 00h - Na Praia de Peracanga, Enseada Azu. Com Dj China, Dj Tuta Menezes (SP), Dj Robson Moreira (ES), Dj Leo Santos (ES) + Escola de Samba

Funk 
- Atrações: MC Thales, Rony e Ricy e DJ Robson Moreira Local: Luazul Horário: 23 horas Ingressos: (meia) R$ 40 (pista) e R$ 100 (camarote) Pontos de venda: Loja Sangelo Guarapari e Boate Luazul e site da Blueticket Mais informações: 3262-5344

Carnaval Pool Party Guarapari 2014 
- Atrações: DJ Ely Yabu Local: Hotel Porto do Sol Horário: das 12 horas às 22 horas Ingressos: 1º lote R$ 40 (fem/consumação) e R$ 60 (masc/consumação), 2º lote (somente entrada) R$ 40 (fem) e R$ 60 (masc) Pontos de venda: Vide Bula (Shopping Praia da Costa), Missbella (Shopping Vitória), Porto Beach Club e Loja Soft (Guarapari) Mais informações: 3361-6537

Show 
- Atrações: Banda Comichão e Banda Agitaê Local: praça central de Iriri Horário: 23 horas

Carnaval Taikô 
- Atrações: Escola de Samba, DJs Robson Moreira (ES), Léo Santos (ES), China (SP) e Tuta Menezes (SP) Local: Taikô, Praia de Peracanga, Enseada Azul - Guarapari Horário: a partir das 14 horas Ingressos: R$ 40 Pontos de venda: Mais informações:

Série Breaking Bad
A segunda parte da quinta e última temporada entra para o catálogo para quem quer rever ou conhecer o final da trajetória de Walter White. Netflix, 1/3

Domingo

Carnaval Taikô 
14h 00h - Na Praia de Peracanga, Enseada Azul. Com Dj Junior C (SP), Dj Bruno Be, Dj Robson Moreira (ES), Dj Leo Santos (ES) e Escola de Samba

Show 
- Atrações: Trio Xamego (SP), Trio Candieiro (RJ) e Filhos do Nordeste (RJ) Local: bar Forró, em Itaúnas Horário: 23 horas Ingressos: R$ 20 (antecipado) e R$ 30 (no local) Pontos de venda: Café Brasil

Carnaval Taikô 
- Atrações: Escola de samba, DJs Robson Moreira (ES), Léo Santos (ES), Junior C (SP) e Bruno Be (SC) Local: Taikô, Praia de Peracanga, Enseada Azul - Guarapari Horário: 14 horas Ingressos: Pista 2º lote R$ 40 (meia) Pontos de venda: www.blueticket.com.br Mais informações: 3272-0125 / 3024-2555 / 99827-9400

Bloco Pára Rai 
- Atrações: banda Praktum Local: Conseição da Barra Horário: 20 horas Ingressos: (meia) 1º lote R$ 75, 2º lote R$ 90 Pontos de venda: Boate Loft (Vila Velha), lojas HBS da Grande Vitória, Contry Mania (Linhares) e na pousada Bali Mar (COnseição da Barra) Mais informações:

Show 
- Atrações: Zé Paulo Local: Guriri, São Mateus Horário: 23 horas Ingressos: grátis

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

CONFIRA 10 POEMAS DE ORLANDO LOPES. PARTE 2.


Poemas de Orlando Lopes recuperam em tonalidades contemporâneas o espaço e o tempo da ocidentalidade. Visto – lido – de perto, OCCIDENTIA não é um manifesto, nem uma cartilha poética. É uma sucessão de constatações – líricas, poéticas, estéticas, artísticas – em relação a potências difusas da língua portuguesa, e do caráter profundamente ocidental de que esta se reveste

Orlando Lopes é poeta, pesquisador, professor e ativista cultural. Nasceu em Perocão, aldeia de pescadores de Guarapari, no Espírito Santo, em 1972. Radicado em Vitória, publicou Hardcore blues – apocalyptic songs (1993) e participou de diversas antologias e coletâneas literárias. Licenciado em Letras, tem mestrado em Estudos Literários (com dissertação sobre Arnaldo Antunes) e um doutorado em Literatura Comparada na UERJ (estudando o poema “A Máquina do Mundo”, de Carlos Drummond de Andrade).

Abaixo, confira outros 10 grandes poemas do autor (clique nas imagens para ampliá-las):











quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

LICENÇA POÉTICA: LUCIANA PIANCA


Luciana Pianca é apaixonada por literatura. Em seus devaneios, surgem alguns poemas, simples e despretensiosos, na ânsia de descrever a vida por meio dos versos. Publica-os no blog “Versos e Devaneios” (http://lucipianca.blogspot.com.br). Confira, abaixo, o poema “A insustentável leveza do ser”. Sobre o poema, ela disse: "O livro 'A insustentável leveza do ser', do Milan Kundera, me inspirou estes versinhos. O romance é uma obra prima da literatura universal, um clássico".

A INSUSTENTÁVEL LEVEZA DO SER

Noite a noite
retorno ao ponto em que te perdi
meu peso sobre sua leveza
e a contradição do sentir

Seria o eterno retorno
da vida que não comporta esboço
e o eu que insiste em racionar sobre o talvez?

Livre na noite que não tem fim
Só na rua que não tem saída
Imerso na pergunta que não tem resposta.





quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

LICENÇA POÉTICA: IZABELA BRAVIN


Izabela Bravin, 18, capixaba e canela verde, ateia, vegetariana, feminista, simpatizante do comunismo, cursa filosofia na UFES, adora chás e cafés amargos, faz bolo aos domingos e morre de vergonha do que escreve. Confira, abaixo, o poema “Vosso coração”:

VOSSO CORAÇÃO

Posto que és maciço de pedra.
Posto que é floresta densa e pioneira
que é erva daninha
o vosso coração,

Que é rebentação de onda de mar
que é o caroço do furacão
que é figura de um presságio de má ventura
o vosso coração.

renuncio-me
postergo-me
pra ser-vos
anteponho ser tal qual a esponja das vagas,
cá que eu, sendo brisa marinha, arrefeço.

Sendo orvalhada
pois, sendo o que exala a terra molhada,
sou colo e redenção
ao vosso coração.


sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

OS 10 MELHORES POEMAS DE DRUMMOND.


A polícia identificou Pablo Lucas Faria como o responsável pela pichação da estátua de Carlos Drummond de Andrade, na praia de Copacabana, zona sul do Rio, na madrugada de quarta-feira (25). Enfim, o suspeito foi flagrado por câmeras de segurança cometendo o ato de vandalismo ao lado da namorada dele, identificada apenas como Mel. Segundo a polícia, Pablo pode ser o responsável pelas pichações aos monumentos em homenagem a Zózimo do Amaral, no Leblon, e em menção a Estácio de Sá, no Aterro do Flamengo, ambos na zona sul.

Homenagem

O Outros 300 não é a favor de vandalismos e injustiças. Assim, em reconhecimento a grande obra de Carlos Drummond de Andrade, escolheu os dez poemas mais significativos do poeta. Confira:

A Máquina do Mundo 

E como eu palmilhasse vagamente
uma estrada de Minas, pedregosa,
e no fecho da tarde um sino rouco
se misturasse ao som de meus sapatos
que era pausado e seco; e aves pairassem
no céu de chumbo, e suas formas pretas
lentamente se fossem diluindo
na escuridão maior, vinda dos montes
e de meu próprio ser desenganado,
a máquina do mundo se entreabriu
para quem de a romper já se esquivava
e só de o ter pensado se carpia.
Abriu-se majestosa e circunspecta,
sem emitir um som que fosse impuro
nem um clarão maior que o tolerável
pelas pupilas gastas na inspeção
contínua e dolorosa do deserto,
e pela mente exausta de mentar
toda uma realidade que transcende
a própria imagem sua debuxada
no rosto do mistério, nos abismos.
Abriu-se em calma pura, e convidando
quantos sentidos e intuições restavam
a quem de os ter usado os já perdera
e nem desejaria recobrá-los,
se em vão e para sempre repetimos
os mesmos sem roteiro tristes périplos,
convidando-os a todos, em coorte,
a se aplicarem sobre o pasto inédito
da natureza mítica das coisas,
assim me disse, embora voz alguma
ou sopro ou eco o simples percussão
atestasse que alguém, sobre a montanha,
a outro alguém, noturno e miserável,
em colóquio se estava dirigindo:
“O que procuraste em ti ou fora de
teu ser restrito e nunca se mostrou,
mesmo afetando dar-se ou se rendendo,
e a cada instante mais se retraindo,
olha, repara, ausculta: essa riqueza
sobrante a toda pérola, essa ciência
sublime e formidável, mas hermética,
essa total explicação da vida,
esse nexo primeiro e singular,
que nem concebes mais, pois tão esquivo
se revelou ante a pesquisa ardente
em que te consumiste… vê, contempla,
abre teu peito para agasalhá-lo.”
As mais soberbas pontes e edifícios,
o que nas oficinas se elabora,
o que pensado foi e logo atinge
distância superior ao pensamento,
os recursos da terra dominados,
e as paixões e os impulsos e os tormentos
e tudo que define o ser terrestre
ou se prolonga até nos animais
e chega às plantas para se embeber
no sono rancoroso dos minérios,
dá volta ao mundo e torna a se engolfar
na estranha ordem geométrica de tudo,
e o absurdo original e seus enigmas,
suas verdades altas mais que tantos
monumentos erguidos à verdade;
e a memória dos deuses, e o solene
sentimento de morte, que floresce
no caule da existência mais gloriosa,
tudo se apresentou nesse relance
e me chamou para seu reino augusto,
afinal submetido à vista humana.
Mas, como eu relutasse em responder
a tal apelo assim maravilhoso,
pois a fé se abrandara, e mesmo o anseio,
a esperança mais mínima — esse anelo
de ver desvanecida a treva espessa
que entre os raios do sol inda se filtra;
como defuntas crenças convocadas
presto e fremente não se produzissem
a de novo tingir a neutra face
que vou pelos caminhos demonstrando,
e como se outro ser, não mais aquele
habitante de mim há tantos anos,
passasse a comandar minha vontade
que, já de si volúvel, se cerrava
semelhante a essas flores reticentes
em si mesmas abertas e fechadas;
como se um dom tardio já não fora
apetecível, antes despiciendo,
baixei os olhos, incurioso, lasso,
desdenhando colher a coisa oferta
que se abria gratuita a meu engenho.
A treva mais estrita já pousara
sobre a estrada de Minas, pedregosa,
e a máquina do mundo, repelida,
se foi miudamente recompondo,
enquanto eu, avaliando o que perdera,
seguia vagaroso, de mão pensas.

Congresso Internacional do Medo

Provisoriamente não cantaremos o amor,
que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.
Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços,
não cantaremos o ódio, porque este não existe,
existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,
o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,
o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas,
cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,
cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte.
Depois morreremos de medo
e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas

Poema da purificação

Depois de tantos combates
o anjo bom matou o anjo mau
e jogou seu corpo no rio.
As água ficaram tintas
de um sangue que não descorava
e os peixes todos morreram.
Mas uma luz que ninguém soube
dizer de onde tinha vindo
apareceu para clarear o mundo,
e outro anjo pensou a ferida
do anjo batalhador.

Poema de Sete Faces

Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.
As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.
O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.
O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode.
Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.
Mundo mundo vasto mundo,
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.
Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.

Tarde de Maio

Como esses primitivos que carregam por toda parte o
maxilar inferior de seus mortos,
assim te levo comigo, tarde de maio,
quando, ao rubor dos incêndios que consumiam a terra,
outra chama, não perceptível, tão mais devastadora,
surdamente lavrava sob meus traços cômicos,
e uma a uma, disjecta membra, deixava ainda palpitantes
e condenadas, no solo ardente, porções de minh’alma
nunca antes nem nunca mais aferidas em sua nobreza
sem fruto.
Mas os primitivos imploram à relíquia saúde e chuva,
colheita, fim do inimigo, não sei que portentos.
Eu nada te peço a ti, tarde de maio,
senão que continues, no tempo e fora dele, irreversível,
sinal de derrota que se vai consumindo a ponto de
converter-se em sinal de beleza no rosto de alguém
que, precisamente, volve o rosto e passa…
Outono é a estação em que ocorrem tais crises,
e em maio, tantas vezes, morremos.
Para renascer, eu sei, numa fictícia primavera,
já então espectrais sob o aveludado da casca,
trazendo na sombra a aderência das resinas fúnebres
com que nos ungiram, e nas vestes a poeira do carro
fúnebre, tarde de maio, em que desaparecemos,
sem que ninguém, o amor inclusive, pusesse reparo.
E os que o vissem não saberiam dizer: se era um préstito
lutuoso, arrastado, poeirento, ou um desfile carnavalesco.
Nem houve testemunha.
Nunca há testemunhas. Há desatentos. Curiosos, muitos.
Quem reconhece o drama, quando se precipita, sem máscara?
Se morro de amor, todos o ignoram
e negam. O próprio amor se desconhece e maltrata.
O próprio amor se esconde, ao jeito dos bichos caçados;
não está certo de ser amor, há tanto lavou a memória
das impurezas de barro e folha em que repousava. E resta,
perdida no ar, por que melhor se conserve,
uma particular tristeza, a imprimir seu selo nas nuvens.

Ausência

Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.

Canção Final

Oh! se te amei, e quanto!
Mas não foi tanto assim.
Até os deuses claudicam
em nugas de aritmética.
Meço o passado com régua
de exagerar as distâncias.
Tudo tão triste, e o mais triste
é não ter tristeza alguma.
É não venerar os códigos
de acasalar e sofrer.
É viver tempo de sobra
sem que me sobre miragem.
Agora vou-me. Ou me vão?
Ou é vão ir ou não ir?
Oh! se te amei, e quanto,
quer dizer, nem tanto assim.

Para Sempre

Por que Deus permite
que as mães vão-se embora?
Mãe não tem limite,
é tempo sem hora,
luz que não apaga
quando sopra o vento
e chuva desaba,
veludo escondido
na pele enrugada,
água pura, ar puro,
puro pensamento.
Morrer acontece
com o que é breve e passa
sem deixar vestígio.
Mãe, na sua graça,
é eternidade.
Por que Deus se lembra
— mistério profundo —
de tirá-la um dia?
Fosse eu Rei do Mundo,
baixava uma lei:
Mãe não morre nunca,
mãe ficará sempre
junto de seu filho
e ele, velho embora,
será pequenino
feito grão de milho.

Quadrilha

João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para o Estados Unidos, Teresa para o
convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto
Fernandes
que não tinha entrado na história.

No meio do caminho

No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.
Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.



CAMINHADA LITERÁRIA (CONFRARIA DOS BARDOS).


A "Confraria dos Bardos" é um grupo de Vitória, capital do Espírito Santo, cujo intuito é reunir escritores de literatura, divulgar e tornar acessível a obra, a imagem e o evento do artista literato - ser mais um suplemento de apoio a esta cultura. Agora, a Confraria está com o novo projeto “POESIA NA CALÇADA”, que incluirá performances de cinema, teatro, música, exposição, performance, literatura, entre outros


Atenção, escritores! 


Após o nosso Sarau no evento "Poesia na Calçada", programado para o dia 21/02, iremos à Rua da Lama, localizada próxima a Ufes (local onde acontecerá o evento), realizar uma "Caminhada Literária": o objetivo é distribuir livros de diversos autores de forma gratuita. 



Animou?

Basta entrar em contato com a gente, pegaremos seu livro, fazemos a divulgação e o distribuímos gratuitamente!

Pedimos ao interessado que nos envie uma imagem do livro para nosso e-mail (revistadosbardos@gmail.com), como também um resumo da obra para divulgação.

"Lugar de poesia na calçada...
E na Lama!"

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

LICENÇA POÉTICA: FABRÍCIO COSTA


Fabrício Costa, capixaba, natural de Ecoporanga, estuda Geografia na Universidade Federal do Espírito Santo e é poeta por vocação. Escreve desde menino, mas foi em 2010, aos 22 anos de idade, que publicou seu primeiro livro “O Riso que Contrasta”. Nesta obra, o autor nos presenteou com uma coletânea de poemas escritos desde os 12 anos de idade. Atualmente, Fabrício Costa trabalha em um novo projeto que deverá ser publicado em 2013. Confira, abaixo, o poema “Post mortem”:


POST MORTEM 

Um poema foi encontrado morto,
morreu de fome,
fome de palavras, 
fome de apreço.

Um poema foi encontrado morto, 
esquartejaram-no, 
desmembraram suas sílabas,
jogaram suas vírgulas aos porcos.

Um poema foi encontrado morto,
morreu sem socorro,
como baleia, ficou preso na areia da praia, 
encalhado, morreu sufocado.

Um poema foi encontrado morto,
motivo da morte: caneta ausente,
morreu de vontade de ser escrito, 
suas letras sumiram no espaço, cadáver oculto.

Um poema foi encontrado morto,
imagina-se que por excesso de palavras doces,
o certo é que morreu lenta e sofregamente, 
morte por diabetes.

Um poema foi encontrado morto,
falaram brevemente nos jornais,
suas palavras um dia foram famosas, 
morreu de ostracismo.

Um poema foi encontrado morto, 
mas não falaram sobre ele,
morreu perdido em um jogo de palavras cruzadas
morreu por ser aventureiro demais.

Um poema foi encontrado morto,
morreu por tentar se fazer de conto,
por tentar enganar a morte,
morreu de desengano.

Um poema foi encontrado vivo, Pedindo esmolas,
Ninguém lhe deu atenção, 
Jogaram-lhe na sarjeta para morrer,
Morreu de maus tratos e foi enterrado como indigente.