terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

LITERATURA VEST UFES 2014: ZERO À ESQUERDA - PARTE 1



No decorrer dessa semana, publicaremos, em cinco partes, uma análise do livro “Zero” (Douglas Salomão), que está na lista dos livros do VEST UFES 2014, feita por Rodrigo Moreira Almeida. Confira a 1ª parte do artigo

Lemos na orelha de Zero (Vitória: Secult, 2006, 160 páginas), livro de poemas de Douglas Salomão, o seguinte sobre o autor:

“Douglas Salomão é capixaba, artista plástico, formado em Letras-português e mestrando em Estudos Literários da UFES. No campo das artes visuais, realizou intervenções artísticas e poéticas com o grupo performático Scem real e participa, desde 1996, de exposições coletivas de arte, apresentando objetos que transitam entre as linguagens plástica e literária.  Após desenvolver alguns trabalhos ligados à música experimental (em parceria com Cons) e participar de grupos de estudos – envolvendo arte, psicanálise, filosofia e literatura – sua produção ganhou um caráter ainda mais literário. Como escritor, participou do livro Corpo de barro de Luciene Hibner (2003) e da Coletânea Instantâneo (2005).”
           
Como se pode ver, estamos diante de um livro cujo autor, além de poeta, é também artista plástico e músico. Presumivelmente trata-se de uma pessoa relevante no cenário cultural do Espírito Santo, por essa atuação tão diversificada, importância que é confirmada quando notamos que Zero é uma das obras sugeridas para leitura do VEST–UFES 2014. Isso não é pouca coisa: afinal, o fato de um autor capixaba ser leitura sugerida para o vestibular da única universidade pública deste estado significa que tal autor é “representativo” da literatura produzida no Espírito Santo. Entretanto, como nem o reconhecimento institucional nem a atuação do autor no cenário cultural são garantias de qualidade literária, Zero deve ser analisado e julgado por seus próprios méritos. Aliás, por se tratar de um livro “representativo” da produção literária no Espírito Santo, que deverá ser lido por centenas de estudantes que prestarão o vestibular da UFES, a análise requerida deve ser tanto mais rigorosa.                                                                                                      

Começo, então, pelas epígrafes do livro. A primeira é uma frase de Maurice Blanchot, “Escrever é quebrar o vínculo que une a palavra ao eu”, que já permite descobrir algo da proposta literária de Douglas Salomão. Para ele, a escrita (o que inclui, obviamente, a escrita de um poema) não é um meio para expressar sentimentos ou estados de alma da pessoa que escreve. O poema possui uma vida independente de seu autor, com um valor também independente de seu criador. Para usar uma metáfora de João Cabral de Melo Neto, o poema é “um organismo acabado, capaz de vida própria. É um filho, com vida independente, e não um membro que se amputa, incompleto e incapaz de viver por si mesmo”.                                                                                      

O próprio João Cabral, como se sabe, demonstrou esse anti-expressionismo tanto em suas produções poéticas como em suas declarações sobre sua poesia, constituindo-se num marco importante do que podemos chamar de vertente construtivista da poesia brasileira moderna, preocupada em enfatizar a construção ou composição do poema em detrimento da expressão da subjetividade do poeta. Um outro marco importante dessa corrente é o grupo Noigandres, encabeçado por Augusto e Haroldo de Campos e Décio Pignatari, responsável pela produção teórica e artística da poesia concreta. De fato, num de seus manifestos mais importantes (que não por acaso cita Cabral como precursor, pela “linguagem direta, economia e arquitetura funcional do verso”), o grupo define o poema concreto como “um objeto em e por si mesmo, não um intérprete de objetos exteriores e/ou sensações mais ou menos subjetivas”. Não por acaso, a segunda epígrafe de Zero é um trecho de “Ovonovelo”, poema escrito por Augusto de Campos, o que vem confirmar o propósito de Douglas Salomão em filiar-se a uma tradição construtivista:



Embora não seja um poema concreto, mas um caligrama, “Ovonovelo” foi escrito em 1956, época das primeiras teorizações a respeito da poesia concreta. Por conta disso, o poema já mostra algo da proposta estética do grupo Noigandres, que seria desenvolvida em mais detalhes nos anos seguintes. Assim, a figura do círculo, além de estar presente no aspecto visual do poema, também se encontra representada no circuito de aliterações e paronomásias do texto: “nu / des do nada / ate o hum / ano mero nu / mero do zero / crua criança incru / stada”. Aqui, a forma não é simplesmente imposta ao texto de fora, como na maioria dos caligramas: ela impregna o ritmo do poema, pela interação entre palavras sonoramente semelhantes. O rigor construtivo, alheio a “sensações mais ou menos subjetivas”, aparece claramente, de tal maneira que há uma interação entre fundo e forma, entre o que o poema diz e como ele diz. Esse simbolismo fonético, observado em "Ovonovelo", obviamente não é privilégio de poetas construtivistas: é uma das características mais marcantes do discurso lírico em todas as épocas.



Porém, nesse caso, o rigor construtivo associa-se à anulação dos sentimentos subjetivos do poeta, conforme observado na epígrafe de Maurice Blanchot.            Podemos, assim, discernir o que parece ser o projeto literário de Douglas Salomão, definido em Zero: escrever uma poesia que seja independente daquele que a escreve, algo que não precise referir-se à pessoa do poeta para funcionar corretamente. Ao mesmo tempo, busca-se o trabalho exaustivo em cada parte do poema, de modo a fazer com que haja uma identificação ideal entre fundo e forma, entre o que se diz e como se diz. Anti-expresionismo e rigor formal são, portanto, as duas balizas que supostamente delimitam a produção reunida no livro. Cabe, agora, ver se o autor efetivamente conseguiu cumprir à risca sua proposta.          



Nesse sentido, a primeira observação relevante que se pode fazer é a seguinte: para um livro que toma como diretriz de escrita a preocupação com a construção, Zero impressiona pela sua absoluta falta de unidade e coerência. Encontramos nele, misturados, poemas em verso, poemas espacializados, poemas (supostamente) tipológicos, sem que houvesse sequer o trabalho de separá-los em seções, o que certamente facilitaria a leitura (e, com ela, a crítica). À desorganização soma-se a falta de rigor na composição dos poemas, a despeito do que pretende seu autor.         

Os poemas menores, de apenas um ou dois versos, dão o melhor exemplo disso: de trivialidades como “avenca só dá em casa de gente feliz” (p. 127) até versos que se pretendem “pílulas” de sabedoria, como “escrever é colocar a vida em risco” (p. 83), estão todos mais preocupados com a simples veiculação de “ideias”, sem que haja preocupação com o modo como essas “ideias” serão transpostas para o papel. Exemplos dessa frouxidão podem ser facilmente encontrados nos dísticos e monósticos do livro: “meus olhos olham para as coisas / sem minha permissão” (p. 61); “inveja tem os olhos como casa” (p. 73); “a memória é o tempero do tempo” (p. 91); “cacos de garrafa em pedaços / são quebra-cabeças de vidro” (p. 103); “sorriso é como um rio que deságua no rosto” (p. 129); “espinho é um arrepio de galho” (p. 131), e por aí vai. Querendo apenas ser um instrumento para o anúncio de ideias simpáticas ou solenes, esses poemas possuem um trabalho apenas superficial com a linguagem, pois apesar de pontuados aqui e ali com algumas metáforas e aliterações, a forma não altera a estrutura profunda do texto. Isso pode ser comprovado por um fato muito simples: ao invés de privilegiar uma sintaxe elíptica, mais adequada à forma curta, Douglas Salomão mantém intacta toda estrutura da sintaxe discursiva, tradicional, em seus poemas curtos. Compara-se, por exemplo, qualquer dos poemas citados com a “montagem” de takes e a rapidez comunicativa de “Numa estação de metrô”, de Ezra Pound: “A aparição destes rostos entre tantos / Pétalas num úmido, negro ramo".




Rodrigo Moreira de Almeida é formado em Letras -Português pela Universidade Federal do Espírito Santo e professor da rede particular em Vila Velha. Atualmente, tenta organizar melhor o tempo para poder estudar para o mestrado da UFES. Pratica a crítica literária nas horas vagas. 

5 comentários:

  1. Onde compra esse livro?

    ResponderExcluir
  2. Eu também queria saber onde encontrar este livro. Tennho bastante interesse.

    ResponderExcluir
  3. Você explica muito bem!

    ResponderExcluir
  4. Quero comprar esse livro....sabe onde encontrá lo???? Sou de Santa Catarina e por aqui não encontrei.... avise me pelo facebook: ritinhasilveira

    ResponderExcluir