sábado, 23 de fevereiro de 2013

LITERATURA VEST UFES 2014: ZERO À ESQUERDA - PARTE 5

No decorrer dessa semana, publicaremos, em cinco partes, uma análise do livro “Zero” (Douglas Salomão), que está na lista dos livros do VEST UFES 2014, feita por Rodrigo Moreira Almeida. Confira a 5ª parte do artigo

No outro poema (p. 111), a frase “dentro da semente tem uma árvore”, é dividida em segmentos, dispostos graficamente em espiral, que reproduzem o movimento de germinação da planta a partir do núcleo central da semente. O modo como ocorre a segmentação reforça essa dinâmica, pela quase identidade fonética entre o primeiro e o último segmentos (“de” e “re”, respectivamente), sugerindo que o resultado final de todo o processo já se encontrava in nuce na semente. Por fim, como no poema citado anteriormente, há um uso não-convencional do parênteses, que reproduz iconicamente a própria semente, ao “encapsular” dentro de si toda a frase:


No entanto, apesar dessas boas realizações, o livro de Douglas Salomão, de modo geral, não consegue levar o trabalho artístico à estrutura profunda do poema. Na maioria dos casos, o trabalho é apenas superficial, sem que haja razão alguma para a disposição dos textos. E se não há razão, logo a forma como o poema se configura é puramente arbitrária. E o arbitrário “não possibilita a evolução de formas.”. De igual modo, há uma apropriação acrítica da tradição modernista, principalmente do concretismo. Douglas Salomão parece não saber fazer a triagem entre o que interessa e o que não interessa, hoje, dos poetas ligados à poesia concreta, e acaba aproveitando procedimentos que não passam de curiosidade histórica, como os “poemas-embalagem” de Augusto de Campos. Deixando intervir o arbitrário de forma tão constante em suas composições e incapaz de selecionar criticamente o que vale a pena ser aproveitado da tradição, Zero é um livro que não tem importância alguma no cenário da poesia brasileira contemporânea. No fim das contas, nem tudo no livro é arbitrário: seu título descreve perfeitamente o valor que a obra tem para os debates atuais sobre a poesia e a língua.



(Texto de Rodrigo Moreira de Almeida)    

Confira a 1ª parte do artigo "Zero à esquerda": http://outros300.blogspot.com.br/2013/02/literatura-vest-ufes-2014-zero-esquerda.html 
 
Confira a 2ª parte do artigo "Zero à esquerda": http://outros300.blogspot.com.br/2013/02/literatura-vest-ufes-2014-zero-esquerda_20.html
 
Confira a 3ª parte do artigo "Zero à esquerda": http://outros300.blogspot.com.br/2013/02/literatura-vest-ufes-2014-zero-esquerda_21.html
 Confira a 4ª parte do artigo "Zero à esquerda": http://outros300.blogspot.com.br/2013/02/literatura-vest-ufes-2014-zero-esquerda_22.html
 
Rodrigo Moreira de Almeida é formado em Letras -Português pela Universidade Federal do Espírito Santo e professor da rede particular em Vila Velha. Atualmente, tenta organizar melhor o tempo para poder estudar para o mestrado da UFES. Pratica a crítica literária nas horas vagas.

Um comentário:

  1. Bem crítico em rs.
    Parabéns, gostei do blog.

    ResponderExcluir