No
final de Condição Pós-Moderna
(1993), o geógrafo marxista britânico David Harvey (1935-) argumentou que a
atual época que nos cabe viver se tornou adepta intransigente da diversidade,
em nome da qual se inviabiliza e desqualifica qualquer possibilidade de
parâmetros comuns para os povos do mundo, os quais se tornaram, por isso mesmo,
reféns do tumulto sem fim das divisões religiosas, étnicas, de gênero, de
segmentações de classe, subjetivas e um sem fim de outras.
Estamos
tão tomados e tramados pela diversidade de visões, de posições, identidades e
comportamentos que minimamente não conseguimos nos orientar em proveito de
nossos desafios comuns, como os que dizem respeito ao direito à moradia digna,
à alimentação, à produção de conhecimentos livres, à saúde, à livre expressão
de nossas diferenças sexuais, comportamentais, culturais, étnicas, as quais, a
propósito, jamais serão livres se coletivamente não possuírem as condições
básicas para tanto.
Como
não é fácil sugerir parâmetros comuns, precisamente porque cultivamos a ideia
de diversidade, proponho, neste artigo, um método, para a produção de
referências norteadoras comuns, baseado em dois princípios, a saber:
Um
princípio de igualdade inegociável de tal sorte que possamos dizer igualmente
não às forças de opressão que igualmente afetam a todos os povos do mundo. Tal
princípio não pode ser estendido indiferentemente a todos as forças de opressão
do mundo ao mesmo tempo, porque elas atuam hierarquicamente, umas com maior
poder de destruição e opressão que outras. É, portanto, importante escolhê-las
hierarquicamente, razão pela qual se faz necessário um segundo principio, o de
urgência hierárquica.
O
princípio de urgência e de hierarquia
O
princípio de urgência hierárquica assim é chamado porque está relacionado com a
necessidade crucial de dizermos não antes de tudo, sem concessões, às forças
que, na urgência de justiça de nosso presente histórico, hierarquicamente mais
nos põe em risco e que efetivamente são as que estão atuando mundialmente de
forma mais agressiva, bélica, criminosa, sempre em processo, de modo que,
superando um risco iminente, inscrito, por tal ou qual força de opressão,
possamos escolher outra força que também nos põe em risco e assim ao infinito,
nunca disparando contra a utopia da produção coletiva de uma civilização
terráquea fundada na igualdade absoluta, sem que precisemos de cadeias, de
neuroses, de prostituição ou qualquer outra forma de tutela que nos rebaixe
enquanto coletividade, diminuindo-nos.
Parto
da premissa de que a civilização burguesa, que atua em todo o planeta, é a
principal inimiga da vida na Terra. Trata-se de um modelo social impraticável,
em perigoso e inevitável estágio de decadência generalizada, pela evidente razão
de que chegamos ao limite dos limites: a própria Terra, nossa mãe comum, tem um
corpo que não pode sustentar uma multidão de humanos buscando bem-estar
privado, em conformidade com uma lógica baseada na concentração de renda e que,
por isso mesmo, não vive sem colocar no epicentro de sua dinâmica interna
valores econômicos, simbólicos, culturais e sociais essencialmente
dispendiosos, narcísicos e parasitas.
Por
outro lado, dentro da civilização burguesa, múltiplas forças atuam em graus
hierárquicos diferentes de agressão, parasitismo, concentração de poder –
inclusive bélico – e de renda, razão pela qual é preciso usar, para produzirmos
referências comuns, o método do princípio de urgência e de hierarquia, a fim de
saber quais forças, em bloco, fazem estrago maior ao conjunto das vidas da
Terra. Sob esse ponto de vista, pergunto: quais são as forças que efetivamente
têm invadido outros países, matando principalmente crianças, mulheres,
homossexuais, negros, trabalhadores, alteridades? Quais são as forças de
opressão que, no atual presente histórico, patrocinam golpes de Estado pelo
mundo afora, desconsiderando totalmente a Carta da ONU, principalmente no que
diz respeito ao direito dos povos de escolher seu próprio destino, com
dignidade, autonomia, em conformidade com o princípio de soberania? Quais
forças controlam e concentram os maiores interesses da civilização burguesa: os
industriais, financeiros, bélicos, midiáticos, étnicos, aristocráticos?
Uma
teoria da conspiração
É
evidente que para todas essas perguntas uma única resposta emerge, claramente:
são as forças ligadas à expansão ocidental, epicentro histórico da civilização
burguesa e que, na atualidade, concentram-se objetivamente nos interesses
econômicos da oligarquia estadunidense, associada, em bloco, com outras
oligarquias, sobretudo as europeias, apoiadas pela máquina de matar chamada
Otan, mas também as dos países árabes produtores de petróleo, como Arábia
Saudita, Emirados Árabes Unidos, Catar, Kuwait, além de Israel e Turquia. Essas
são as forças mais reacionárias, violentas, destruidoras e agressivas da
atualidade – e que ocupam a linha de frente na defesa do que existe de pior na
civilização burguesa: racismo, concentração de renda, exibicionismo,
desperdício, presunção, arrogância, hipocrisia, cinismo, patriarcado. São
forças que atuam em bloco, de forma coesa e planejada, interferindo em todos os
países ou grupos que, por uma razão ou outra, funcionam, no presente, como
obstáculo para seus interesses vorazes, bárbaros.
É
claro que o imperialismo americano, a serviço antes de tudo de sua oligarquia
empresarial, militar, financeira, midiática, constitui o epicentro do conjunto
dessas forças reacionárias, muito embora seja manietado pela oligarquia
sionista. Isso é tão verdadeiro que é possível dizer sem medo de errar que ele
atua em todo o mundo patrocinando divisões étnicas, religiosas, ideológicas,
assim como treinando e efetivamente atuando, com suas próprias forças bélicas,
em qualquer lugar do mundo onde existam guerras, conflitos de classes, étnicos,
religiosos, ideológicos (logo em todos os lugares do mundo), com o propósito de
usar a seu favor esses conflitos e divisões todas.
Tais
argumentos pretendem ser, sim (embora não fale novidade alguma), uma evidente
teoria da conspiração, necessária porque a conspiração efetivamente existe e,
não tenhamos dúvidas, os Estados Unidos da América são os principais
conspiradores do mundo atual, razão por que me parece prudente ampliar a
constatação de Evo Morales, presidente da Bolívia, de que cada embaixada
americana funciona como um encrave golpista contra o país que a abriga. Não
apenas as embaixadas americanas são golpistas, mas todas as instituições de
peso, privadas e estatais, dos Estados Unidos. Sob esse ponto de vista, o
Departamento de Estado, a propósito, é golpista, assim como o são igualmente o
FBI, a CIA, o Pentágono, as suas grandes redes de comunicação, suas corporações
empresariais e financeiras; suas forças armadas e mesmo a instituição
Presidência da República, tenha o rosto que tiver para representá-la, Clinton,
Bush, Obama.
O
mensalão e a teledramaturgia do JN
Tudo
que venha ou fale em nome dos Estados Unidos, direta e indiretamente,
consciente e inconscientemente, existe para golpear toda possibilidade de
justiça, liberdade e soberania para todos os povos do mundo e atua efetivamente
para evitar, fazendo uso de todos os recursos, o tempo todo, sem cessar, para
que um país ou outro ou um país e outro decidam seus próprios destinos,
sobretudo se incorporarem uma agenda de contestação aos pilares da civilização
burguesa. É por isso que proponho novamente ampliar outra recente afirmação de
Evo Morales, a de que, no contexto da Bolívia, as ONGs têm funcionado como “a
quinta instância da espionagem”, a serviço de estratégias golpistas de interesses
dos Estados Unidos.
Caro
Evo Morales, como bem sabe, não são apenas as ONGs que funcionam como a quinta
instância da espionagem a serviço de estratégias golpistas que interessam ao
imperialismo americano. As instituições nacionais, de qualquer país do mundo
afinal, que mantêm contato rotineiro e de formação com qualquer golpista
instituição americana (sejam as do âmbito jurídico, midiático, militar,
empresarial, policial, educacional, governamental, cultural), no geral
funcionam, parcial ou completamente, como se fossem a quinta instância da
espionagem de seus próprios concidadãos, principalmente se estes, por uma
imperialista razão golpista qualquer, não forem totalmente da confiança dos
golpistas interesses corporativos dos Estados Unidos da América.
Se,
pois, a argumentação precedente vale para qualquer país do mundo, obviamente
vale para o Brasil, razão pela qual pergunto: sabendo que as corporações
midiáticas funcionam como a quinta instância de espionagem e de propaganda a
serviço dos interesses corporativos americanos, será delírio de minha parte a
suspeita de que a novela Mensalão foi colocada no ar pela teledramaturgia
noticiosa do Jornal Nacional,
para cumprir uma agenda golpista de interesse dos Estados Unidos da América? Se
a pergunta precedente é no mínimo possível, estará a Polícia Federal do Brasil
investigando tão grave tentativa de golpe à soberania brasileira, de seu já
golpeado povo?
Os
golpes contra a soberania dos povos
O que
está em jogo, a propósito, na postura do Supremo Tribunal Federal, com sua
jurisprudência golpista baseada no domínio do fato, no que diz respeito aos
previamente personagens da novela real, midiaticamente chamada de Mensalão?
Será absurdo pensar que existe mais mistério no céu e na terra que supõe nossa
vã filosofia jurídica? O domínio do fato não poderá ser simplesmente ou
literalmente um golpista domínio dos fatos jurídicos e midiáticos brasileiros
pelo imperialismo americano? Não estaremos presenciando, no Brasil, um
detalhado plano golpista, com seus lances de dados enfeixados pelas quintas
instâncias do poder judiciário, policial, midiático, militar, classe mediano,
como se fôramos os voluntários e cooptados agentes de espionagem e de efetivos
golpes contra o direito do povo brasileiro de poder, livremente, escolher seu
próprio caminho de justiça e emancipação.
Se o
que tem marcado a diferença entre o governo do PT, no que diz respeito ao do
PSDB, é a relação com os Estados Unidos, num contexto em que este funcionou e
funciona como a quinta instância da submissão arbitrária aos interesses
golpistas americanos e, por sua vez, aquele procurou diminuir esta submissão,
investindo no intercâmbio econômico e político com outros países da civilização
burguesa, para além do eixo da expansão colonial do Ocidente, não seria o caso
do governo da presidenta Dilma Rousseff contribuir decididamente para que
nossos juízes, nossos policiais federais, nossos pesquisadores, militares,
profissionais de comunicação não mais “dialogassem” apenas com seus respectivos
pares estadunidenses e europeus, mas também com os seus igualmente respectivos
pares chineses, venezuelanos, bolivianos, argentinos, russos, iranianos,
indianos, sul-africanos, cubanos?
Quem
sabe assim não formaríamos uma geração de juízes, policiais federais,
pesquisadores, procuradores, educadores, administradores não mais submetidos à
primeira coluna colonizadora da civilização burguesa, a saber, a do eixo
estadunidense/europeu, com seu domínio dos fatos simbólicos, epistemológicos,
midiáticos, prosódicos, econômicos, étnicos, patriarcais, bélicos, jurídicos,
pedagógicos, publicitários, tecnológicos sobre nossas doutrinadas posições
alegremente subservientes, colonizadas.
No
entanto, nada disso será minimamente possível se não tivermos clareza absoluta
de que o principal bastião contra a emancipação do povo brasileiro é a
concentração de poder midiático, com sua escandalosa e criminosa liberdade de
expressão a serviço integral do imperialismo americano, como sua golpista
instância-mor, pois funciona, tal concentração, como caixa de ressonância das
demais, as político-partidárias, as empresariais, as financeiras, educacionais,
culturais, subjetivas, ocupando ousadamente o lugar de todas.
Se é
verdade a assertiva de que as revoluções jamais serão televisionadas, não menos
verdade é a afirmação de que os golpes contra a soberania dos povos sempre
serão televisionados. O Jornal
Nacional é o veículo escolhido (pelo tio Sam?) para nos mostrar,
capítulo por capitulo, o golpe contra a democracia brasileira, o qual não
apenas está sendo engendrado, mas, efetivamente, realiza-se.
***
[Luís Eustáquio Soares é poeta, escritor, ensaísta e professor de
Teoria da Literatura na Universidade Federal do Espírito Santo]

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