quarta-feira, 10 de julho de 2013

ANÁLISE DA CANÇÃO "A VIA LÁCTEA", DO GRUPO LEGIÃO URBANA.



A Via Láctea. Legião Urbana (Composição: Dado Villa-Lobos/ Renato Russo/ Marcelo Bonfá)

Quando tudo está perdido

Sempre existe um caminho
Quando tudo está perdido
Sempre existe uma luz
Mas não me diga isso
Hoje a tristeza não é passageira
Hoje fiquei com febre a tarde inteira
E quando chegar a noite
Cada estrela parecerá uma lágrima
Queria ser como os outros
E rir das desgraças da vida
Ou fingir estar sempre bem
Ver a leveza das coisas com humor
Mas não me diga isso
É só hoje e isso passa
Só me deixe aqui quieto
Isso passa
Amanhã é um outro dia não é?
Eu nem sei porque me sinto assim
Vem de repente um anjo triste perto de mim
E essa febre que não passa
E meu sorriso sem graça
Não me dê atenção
Mas obrigado por pensar em mim


Quando tudo está perdido

Sempre existe uma luz
Quando tudo está perdido
Sempre existe um caminho
Quando tudo está perdido
Eu me sinto tão sozinho
Quando tudo está perdido
Não quero mais ser quem eu sou
Mas não me diga isso
Não me dê atenção

E obrigado por pensar em mim

Mas não me diga isso
Não me dê atenção

E obrigado por pensar em mim



Essa canção foi tirada do CD A tempestade ou O livro dos dias, lançado no ano da morte de Renato. Esse e o Uma outra estação, lançado no ano seguinte, foram escritos e compostos entre 1994 e 1996. Russo “nunca havia deixado de se expor através de sua arte, mas, em letras com A via Láctea e Clarisse, ia ainda além. Tanto era assim que ele mesmo duvidava até onde devia ir” (DAPIEVE, 2000, p. 158). No enterro do filho, Maria do Carmo, emocionada, alivia-se no lamento da perda: “meu filho só foi feliz quando era criança. Tudo o angustiava, até uma guerra lá na Conchinchina. Nos últimos meses, estava deprimido, sabia que estava perto do fim” (REVISTA CARAS, 1996, p. 20), um retrato de como foi para Renato nesse período de composição e produção dos seus últimos trabalhos. Dapieve, biógrafo oficial de Renato, relatou, ainda, em seu livro as impressões que os músicos que o acompanhavam nas gravações tiveram naquela época: “(sic) Renato, na verdade, apareceu muito esporadicamente no estúdio. Quando Marcelo [Bonfá, baterista da Legião] o reencontrou no AR, depois de algum tempo sem vê-lo, ficou impressionado, mal impressionado. ‘Ele estava num sofá, muito magro’, contaria. ‘E é incrível porque aqueles discos têm a voz mais fraca nas linhas melódicas mais difíceis’. Trilha [Carlos Trilha, tecladista que trabalhou com Renato em seus discos solos e nos últimos trabalhos da Legião] também ficou mal: ‘Ele não estava mais dando conta de cantar. Fui chorar e tomar um banho’. Renato registrou quase tudo de primeira [esse registro de primeira é conhecido também como voz guia], e não voltou para regravar nada, exceto A via Láctea, que, contra a opinião da EMI-Odeon, queria transformar na música de trabalho do CD. Quando cantou ‘hoje a tristeza não é passageira / hoje fiquei com febre a tarde inteira / e quando chegar a noite / cada estrela parecerá uma lágrima’, Renato estava efetivamente com febre. ‘A música era muito triste, uma bandeira completa’, lembraria Rafael [Rafael Borges, produtor executivo da Legião]” (DAPIEVE, 2000, p. 158-159)

Essa canção faz menção a muitos lamentos, o mais evidente é o da morte. É ainda um retrato de um protesto politicamente romântico de uma lamentação. É o encontro da esperança com a realidade crua de não se poder fazer nada, é a contradição que tanto fez parte da vida e da obra de Renato. É uma canção que fala abertamente da doença, morte, de amor.  

A canção começa com uma espécie de mote: “quando tudo está perdido”. Quando algo está perdido, há a esperança de encontrá-lo, mesmo sendo muito difícil, há essa esperança. Mas quando tudo está perdido? O que resta? Nesse tudo entra a vida? A Via Láctea, em latim, significa “caminho de leite”. Já no título se percebe o caráter uma viagem para outro plano. Nesse caminho para luz, o qual sugerimos como interpretação, supomos que seja uma tentativa de auto-tranquilidade, de paz, de esperança, mas com um fundo melancólico de lamento. Segundo Dapieve, Renato teria dito à mãe que já havia conversado com Deus sobre tudo o que havia feito de certo e errado e que estava em paz (DAPIEVE, 2000, p. 166).

Para afirmar que não se pode nunca perder a esperança, o eu que fala nessa canção coloca uma situação difícil, mas de momento: “quando tudo está perdido / sempre existe um caminho / quando tudo está perdido / sempre existe uma luz”, quando quer dizer naqueles momentos em que seu interlocutor ou seu auditório está passando dificuldades, sempre há uma saída, ou seja, um caminho e uma luz são constantes, motivo para não perder a esperança. Nessa argumentação, o “eu” (chamaremos de “eu” a pessoa que fala na canção, equivalendo-se ao termo orador e “eus” das análises das outras canções) coloca uma situação difícil, mas a caracteriza como sendo um momento, devido à escolha do denotativo então e modifica esse estado com o advérbio de tempo sempre.

Porém, esse mesmo “eu”, logo em seguida, refuta querer conhecer esse subterfúgio psicológico de esperança. Utilizando-se do operador argumentativo mas, ameniza a situação e pede para que lhe diga aquelas coisas: “mas não me diga isso”, verso que acompanha todas as respostas ao mote, como se não quisesse aquela consciência.

Nesse disco, em cada canção, há um verso, uma estrofe que percebemos um sinal de despedida. Essa canção inteira transmite essa idéia. É indissociável a canção dos últimos dias de Renato. É como se depois de ler sua biografia e ouvir a música, percebe-se em cada contorno seu as crises sofridas pelo cantor. A febre é o problema, e a mesma representa todas as doenças que atemoriza esse “eu”. Nos versos “hoje a tristeza não é passageira / hoje fiquei com febre a tarde inteira / e quando chegar a noite / cada estrela parecerá uma lágrima”, percebemos algumas marcas argumentativas. Nesse primeiro verso, quando afirma que hoje é diferente, subentende-se que, ao frisar esse tempo, em outros momentos aquela tristeza fora passageira, pois nesse mesmo hoje sua doença durou toda a tarde.

Um detalhe muito significativo é a escolha pelos advérbios de tempo e os denotativos de situação que permeiam toda a canção. Nesses versos, o “eu” usa dois momentos do dia: tarde e noite para colocar duas situações de sua vida. Assim, somos inclinados a identificar como um lamento de proximidade da morte. A tarde inteira a febre o acompanhou, proporcionando-lhe uma tristeza que não é passageira. Mas, quando chegar sua morte, a noite, cada estrela, da Via Láctea ou mesmo de todo Universo, “cada estrela parecerá uma lágrima”, um lamento.

Esses próximos versos encontram eco nas palavras de Maria do Carmo, acima citadas, onde é testemunhado toda angústia que o filho tinha ao sentir o mundo. Em “queria ser como os outros / e rir das desgraças da vida / ou fingir estar sempre bem / ver a leveza das coisas com humor”, é não só uma referência a esse estado de doente terminal e deprimir-se com essa impotência, como também ver todos os desastres e não poder fazer nada. Em entrevista a Ricardo Alexandre, a 26 de setembro de 1996, Renato justifica a melancolia que o cerca: “Logo depois teve o acidente com os Mamonas. (...) Eu fiquei muito surpreso que ninguém tenha notado a importância deles como evento cultural brasileiro. (...) Foi horrível, de qualquer forma. Aí, vieram as enchentes, aí a chacina no Pará. E este disco novo, dizem, está tão melancólico, tão triste, tão não-sei-o-quê, que está perfeito para todos esses problemas que a gente está tendo de enfrentar” (RUSSO, 1996, p. 261).

Novamente o “eu” refuta a idéia posta, “mas não me diga isso” e dessa vez justifica, ainda na esfera do tempo, denotando uma falsa momentaneidade dos pensamentos: “é só hoje e isso passa / só me deixe aqui quieto / isso passa”. Para argumentar essa tranqüilidade o “eu” apela para uma informação de senso comum e faz uma pergunta ao seu interlocutor, deixando para a consciência dessa, a afirmação do argumento: “amanhã é um outro dia não é” (grifo nosso).

O tempo, co-protagonista dessa canção, é tão rápido e inconstante que o “eu” nem sabe por que se sente assim e quando diz: “vem de repente um anjo triste perto de mim / e essa febre que não passa / e meu sorriso sem graça” já indica não consegue mais esconder a sua situação e em um último argumento, desmonta seu interlocutor com uma ordem e um agradecimento: “não me dê atenção / mas obrigado por pensar em mim”. Não quer que ninguém o ouça, se importe com ele, uma tentativa, vã, de fortaleza, mas fica “feliz” por fazer parte dessa preocupação alheia.

No desfecho da canção o “eu” repete o que disse durante toda canção em versos casados que representam os autos e baixos que a doença lhe proporcionava, repetindo no fim a ordem e o agradecimento: “quando tudo está perdido / sempre existe uma luz / quando tudo está perdido / sempre existe um caminho / quando tudo está perdido”, acrescentando sua condição de solidão e de não mais querer aquele sofrimento, “eu me sinto tão sozinho / quando tudo está perdido / não quero mais ser quem eu sou / mas não me diga isso / não me dê atenção / e obrigado por pensar em mim / mas não me diga isso / não me dê atenção / e obrigado por pensar em mim”.

A teoria da literatura lírica tem como uma de suas regras não confundir o “eu lírico”, a voz que fala na poesia, com o autor. Mas, no caso de A Via Láctea, entendemos que o lamento é um dêitico e que remete, não ao autor ou cantor, Renato Russo, mas o outro habitante do seu corpo, Renato Manfredini Júnior.

(Texto de Marxwel Alves Pantaleão)




Marxwel Alves Pantaleão, formado em Letras Português pela UFES, é professor de português e literatura. Além de poesia, escreve contos, crônica e letras de música. Não se considera um poeta, mas sim um fascinado pelas letras. Gosta de Legião Urbana e todas as vertentes do Rock. No romantismo e no Simbolismo se encontra, mas flerta com o modernismo. Mantém um Blog na rede (www.marxletras.worpress.com) onde publica as Letras dele mesmo e de seus heterônimos (sim, ele gosta de Fernando Pessoa e se acha!).

Um comentário:

  1. Muito bom!
    Pegando um gancho de Fernando Pessoa, Renato fingiu sentir a dor que, deveras, sentia. E eu a sinto toda vez que o ouço.

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