terça-feira, 12 de março de 2013

CRÔNICA "O MUNDO MUDOU", DE ZECA BALEIRO


Se o homem estivesse realizado com seu modo de viver urbano e confortável, não viveria sonhando com a paz de cabanas

O mundo mudou. E não estou falando isso porque o papa Bento XVI renunciou. Nem porque o próximo papa talvez seja negro, como dizem, o que seria um claro indício de mudança nos hábitos do mundo. Nem porque o Brasil agora tem como presidente uma mulher, que insistem em chamar feiamente de “presidenta”. Não. “O mundo mudou” porque está sempre mudando. E sempre estará, até que um dia chegue o seu alardeado fim (se é que chegará).

Mas quando um homem de meia idade (qual será a inteira?) afirma “o mundo mudou”, o que está verdadeiramente querendo dizer? Que assiste ao nascimento de uma outra era, quiçá. Que vê o mundo passando por uma transformação profunda, como há muito não se via, fazendo a distância de uma década parecer um século.

Hoje vivemos “protegidos” por muitos cuidados e paparicos, sempre sob a forma de “serviços”, e desde que você tenha dinheiro para usá-los, claro. Carro quebrou na marginal? Relaxe, o guincho da seguradora virá em minutos resgatá-lo. Tem dificuldade de locomoção? Espere, a empresa aérea disporá de uma cadeira de rodas para levá-lo ao terminal. Surgiu uma goteira no seu chalé em plenas férias de verão? Calma, o moço que conserta telhados está correndo para lá agora.

Vai ficando para trás um outro mundo – de iniciativas, de gestos solidários, de amizade, de improvisação (sim, “quem não improvisa se inviabiliza”, eu diria, parafraseando Chacrinha). Estamos criando uma geração que não sabe bater um prego na parede, trocar um botijão de gás, armar uma rede. Tá, o leitor agora se pergunta do outro lado: “Quem precisa disso neste mundo cheio de confortos?”...

É, talvez ninguém precise de fato. Mas tenho o orgulho e a vaidade bestas de ter em meu “currículo”a habilidade de fazer “boca de lobo”, por exemplo. Explico: quando a rede – rede de dormir, aquela que o pensador italiano Domenico de Masi considera a maior invenção humana – é longa demais, mais longa que o espaço reservado para armá-la, então damos um nó engenhoso que faz com que o punho da rede diminua, fazendo-a caber naquele espaço.

Parece ser de uma inutilidade sem fim estar aqui falando de redes e improvisações e imaginando um amigo indo ao encontro do outro para resgatá-lo no trânsito engarrafado do fim da tarde... Mas, se o homem contemporâneo estivesse tão plenamente realizado com seu modo de viver urbano e confortável, não viveria sonhando com a paz de cabanas e chalés, com férias perfeitas perto do mar azul de Alagoas, onde poderia ver tevê a cabo mas sem sair da rede (a de dormir, não a internet); nem viveria maldizendo os prestadores de serviços que lhe impõem castigos e humilhações, toda vez que atrasam a entrega ou adiam infinitas vezes a colocação da cortina da sala.

É, o mundo mudou sim. E não adianta dirigir nossas lamúrias a Deus, ocupado demais com as muitas goteiras do mundo e as dezenas de motoboys atropelados na avenida Rebouças. Só nos resta o telefone do SAC, onde gastaremos nossa bílis com impropérios ao vento; ou o site da loja de eletrodomésticos onde ninguém tem nome (que saudade dos Reginaldos, Edmilsons e Velosos!). Ligaremos para falar com a nossa própria solidão, a nossa dependência do mundo dos serviços e a nossa incapacidade de viver com real simplicidade, soterrados por senhas, protocolos e pendências vãs. Nem Kafka poderia sonhar com tal mundo.

P.S.: Me despeço por ora desta coluna, com um agradecimento caloroso e sincero a toda a equipe da revista, aos leitores, entusiastas e detratores. Ainda me constranjo quando ouço me chamarem de “escritor”, alcunha que Machado de Assis, Luis Fernando Verissimo, Ruy Castro e Mario Vargas Llosa, por exemplo, podem carregar sem nenhum prurido. Não eu. De todo modo, reconheço ter me tornado um “escrevinhador” melhor nestes cinco anos como um dos titulares desta página. Até por isso... Até breve, quem sabe!

Zeca Baleiro é cantor, compositor e escritor.

Fonte: IstoÉ.

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